Covid-19: cresce rejeição à vacina produzida pela Oxford

Da redação com Folhapress. Publicado em 24 de abril de 2021 às 10:30.

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A ocorrência de efeitos colaterais –ainda que extremamente raros– e o intervalo maior entre as doses da vacina de Oxford/AstraZeneca, de três meses, têm aumentado a recusa dessa vacina pelos brasileiros.

Diante disso, o Centro de Vigilância Epidemiológica de São Paulo (CVE) e a Coordenadoria de Controle de Doenças, ambos ligados à Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, emitiram uma nota técnica na noite da última quinta-feira (22) endossando os benefícios da vacina na proteção contra a Covid-19.

Segundo a nota, os benefícios da vacina da Oxford superam os riscos de quadro de trombose (coágulos) com plaquetopenia (ou trombocitopenia, baixa quantidade de plaquetas no sangue) descritos como possíveis efeitos colaterais desse imunizante.

Na tarde desta sexta-feira (23), o Ministério da Saúde também emitiu uma nota técnica orientando como deve ser a conduta caso esses eventos sejam notificados.

Os casos reportados na Europa e no Reino Unido em março levaram a EMA (Agência Europeia de Medicamentos) a alterar a bula do imunizante para incluir esses eventos adversos raros no início do mês. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) fez o mesmo no Brasil no início deste mês.

Mesmo assim, a agência, bem como o comitê de assessoramento de vacinas da OMS (Organização Mundial da Saúde), reforçam que o benefício da vacina supera o risco. A alteração da bula da Oxford também foi solicitada pela Anvisa, mesmo com a baixa incidência desses eventos no país.

De acordo com as regras do PNI (Programa Nacional de Imunização), não é possível escolher qual vacina tomar. Além da vacina de Oxford/AstraZeneca, produzida em parceria com a Fiocruz no país, o outro imunizante contra a Covid-19 disponível no Brasil é a Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac e produzida no Instituto Butantan. Ambas são entregues ao Ministério da Saúde, que faz o repasse aos estados e municípios.

Ambos os documentos reiteram o uso da vacina neste momento. Os textos também frisam que, caso seja identificada a ocorrência de síndrome de trombose com trombocitopenia até 28 dias após a primeira dose, não é recomendado que o paciente receba a segunda dose da Oxford/AstraZeneca.

Em comparação com outras vacinas, como a própria Coronavac, a vacina da Oxford apresentou uma alta incidência de efeitos colaterais nos ensaios clínicos (mais de 70% no grupo vacinado), embora nenhum efeito adverso grave tenha sido notado. Efeitos como dor de cabeça, dores no corpo, fadiga, náusea e calafrios podem ocorrer, são esperados e indicam que a vacina está surtindo o efeito esperado, isto é, induzindo uma resposta imune.

Já os eventos de trombose com plaquetopenia são extremamente raros e é necessária ainda uma investigação maior para saber quais são os riscos por trás dos mecanismos. Como eles são graves, qualquer pessoa que apresentar este quadro deve buscar atendimento médico imediato.

Segundo a coordenadora do plano estadual de imunização contra Covid-19 de São Paulo, Regiane de Paula, antes a Coronavac era a vacina utilizada em 9 em cada 10 imunizações no país. Agora, o imunizante de Oxford começou a ser mais aplicado em São Paulo.

“As pessoas comparam os efeitos colaterais das duas porque antes havia maior disponibilidade da Coronavac, mas as duas são igualmente seguras, igualmente benéficas e se vacinar é muito melhor do que não se vacinar.”

Ela também afirma que o Brasil tem tradição na vacinação pública e no monitoramento de efeitos colaterais e lembra que vacinas usadas para outras doenças que não a Covid também têm efeitos colaterais que podem ser desconfortáveis. “Para a vacinação contra a febre amarela em 2017 também foi feita uma vigilância ativa dos efeitos colaterais. Nenhuma vacina ou medicamento é isenta de efeitos adversos”, afirma.

O nome pouco conhecido da farmacêutica também é citado como motivo de receio na população, diante do centenário e conhecido Butantan.

O advogado Humberto Cordeiro de Carvalho, 67, agendou a aplicação da vacina para a última sexta (16) e foi a um posto da Prefeitura de São Paulo para a aplicação da vacina, mas decidiu ir embora ao ser informado que a única opção disponível era o imunizante de Oxford/AstraZeneca.

“Eu ia tomar a primeira dose hoje [16], mas desisti porque é da Oxford”, diz. “Eu já não estou confiante nas vacinas, quanto mais nesta daí”, completou, citando como um dos motivos de sua decisão as notícias que leu sobre a possibilidade de eventos adversos raros do imunizante. Segundo ele, a suspensão da utilização da vacina na Dina marca foi determinante para tentar se vacinar com a Coronavac em um outro dia.

Foto: ABr

Foto: ABr

Após os casos de acidentes vasculares no continente europeu, muitos países decidiram restringir o uso para uma idade mínima de 55 (França) ou 60 anos (Alemanha) ou, se possível, oferecer outra vacina àqueles com menos de 30 anos. A Dinamarca foi o único país a decidir pela suspensão do imunizante.

“Estou com a saúde perfeita. Tenho medo de tomar uma vacina e ter um problema depois. Não gostaria de ter uma sequela”, disse. No entanto, durante os ensaios clínicos da vacina, e mesmo três meses após o início da vacinação no Reino Unido, não foi reportada nenhuma sequela pós-vacina da Oxford, mesmo nos casos em investigação de trombose com trombocitopenia.

No posto de saúde, Carvalho foi informado de que em uma ou duas semanas haveria a opção de se vacinar com a Coronavac. No mesmo local, uma mulher estacionou seu carro e perguntou aos pedestres qual era a marca de vacina aplicada ali. Ao ser informada de que a opção era a da Oxford, ela disse que preferia voltar depois.

No mesmo dia, a aposentada Rosana Colla, 67, decidiu não tomar a vacina em uma UBS na Santa Cecília ao ser informada que a única opção era a da Oxford. Para ela, o que determinou sua decisão foi o fato de não conhecer o nome do instituto que produz a vacina da Oxford no país (Bio-Manguinhos/Fiocruz).

Uma funcionária também disse, sob condição de anonimato, que havia incidência de recusas devido à marca.

No Brasil, foram reportados 22 casos de eventos tromboembólicos pós-vacina da Oxford, dos quais 14 foram classificados como graves e seguem em investigação que busca uma associação de causa e efeito com o imunizante. É importante ressaltar que a ocorrência desses eventos ainda é muito menor em relação à ocorrência de trombose pós-Covid (165 mil casos a cada 1 milhão de pessoas).

A secretaria estadual de Saúde de SP e o Ministério da Saúde reforçam ainda que casos de trombose sem plaquetopenia ou plaquetopenia isolada (sem trombose) não têm qualquer contraindicação para as vacinas da Covid-19.

Para Regiane de Paula, a disponibilidade de mais vacinas de diferentes farmacêuticas será melhor para todos, especialmente para acelerar a vacinação. “As questões estão muito claras: os eventos são raros, as equipes de monitoramento estão atentas e o medo foi causado porque essa vacina não estava disponível antes. É preciso se vacinar com a vacina que estiver disponível no posto”, afirma.

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