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Padre Edjamir Silva Sousa: Homilia no IV Domingo da Quaresma

Da Redação. Publicado em 15 de março de 2021 às 8:46.

Foto: Ascom

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– “Se não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3, 5)

O Reino de Deus está bem presente nos ensinamentos e nos sinais prefigurativos do Antigo Testamento (cf Sl 47. 93. 96.99), desde o tempo da Monarquia em Israel. A literatura sapiencial canta a moldura deste Reino na utopia de que nesse novo tempo “Justiça e paz se abração” (cf. Sl 85). O profeta Jeremias falava de um reino acolhido por corações transformados e que naquele coração o Senhor escreveria sua Nova Aliança (31,3. 31-33), um Reino de felicidade (Ez 34, Mq 4. Is 9,5), de supressão da morte e de seus sinais (Is 25,6ss), o “Dia de Javé” (Dn 1, 44-45).

Mas é no Novo Testamento que o Reino de Deus, sem rupturas com o que fora anunciado pelos profetas, é apresentado de modo mais claro, testemunhado nas palavras e gestos de Jesus (cf. Lc 4, 18 -19). O assíduo leitor da Palavra de Deus percebe que o Reino foi um tema muito caro a Jesus. As obras de Jesus mostram que o Reino está presente, no meio de nós (cf. Mc 2, 15; 10, 15-16. Mt 11, 4;Lc 14, 18). Jesus é o próprio Reino: é a paz de Deus, a justiça, a misericórdia e o amor oferecido a todos (cf. Mt 5, 1-10. Lc 6, 20-23). O Reino de Deus não é abstrato, obscurantista, e nem de coisas fúteis, mas tem um conteúdo real e concreto.

A vida pública de Jesus, em meio às realidades deste mundo, se caracterizou como um diálogo, a partir de uma proposta: “buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6, 33) e o convite à aceitação, mas para acolhe-Lo é necessária a mudança de mentalidade e de comportamento (cf. Mt 3, 2. 5; 5, 13-14; Mc 1,2-8; 16, 15; Lc 3, 1-18; Jo 1,19-28).

O cristianismo é a religião que naturalmente deve buscar a lógica das bem aventuranças do Reino e não se perder em outras propostas. Nossas comunidades e grupos eclesiais, nossos projetos pastorais não podem se perder em espiritualidades e devocionais vazios longe da proposta de Jesus, no intuito de fazer muitas coisas só para atrair público, pois não existe “o show da fé!”.

Nicodemos, figura curiosa do evangelho de hoje, vai ter com Jesus para compreender melhor a dinâmica deste Reino. Jesus o conhece e sabe que ele não é um homem mau, apenas confuso. Ele segue Jesus às escondidas, certamente para não provocar desconforto dentro do Sinédrio, que já tramava uma maneira de tirar Jesus de cena a qualquer custo (com um jogo sujo de mentiras, tentando desestabilizar seus “seguidores” (cf Jo, 1-10), inclusive comprando discípulos para fazer-Lhe uma falsa acusação (cf. Mt 7,3)). Seguir Jesus é como viver no Brasil, não é para amadores.

Nicodemos pertencia à casta dos fariseus, uma ordem religiosa e política caracterizada pela intolerância, pelo radical apego às leis mosaicas e pelas manifestações de culto externo. Ele está sob o manto de duas alienações ferrenhas a religiosa e politica, mas não está preso nelas.

Ele é alguém que demonstra flexibilidade para dialogar e aprender a Boa Nova anunciada por Jesus. Nicodemos se põe num caminho catequético saindo do legalismo ao caminho livre do amor: “Pois Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 15. 16-17).

Esta prova de amor tem um sinal visível, isto é, o Cristo crucificado: “loucura para os pagãos, escândalo para os judeus” (1Cor 1,23). É símbolo da ousadia e do compromisso no anuncio do Reino de Deus, pois anuncia-Lo tem um preço alto.

A loucura e o escândalo da cruz, ao longo da história, têm provocado muitas resistências, inclusive entre os cristãos, dentre os quais, como o próprio Paulo denuncia, “há muitos… que são inimigos da Cruz de Cristo” (Fl 3, 18).

As cruzes que colocamos em nossos altares, em nossas casas, em repartições públicas, até mesmo no alto de nossas igrejas não servem para fazer memória de um fracassado. Alguns até enfeitam demais as cruzes, mas ela é a inconfundível prova de que o amor venceu o ódio, a fraternidade venceu a intolerância, a humildade venceu a arrogância, a vida venceu a dor e a morte. São os efeitos da opção pelo Reino de Deus.

Para podermos proclamar a ressurreição do Crucificado é necessário erguer a sua cruz vitoriosa no serviço e militância pela superação da violência, na busca pela equidade, no compromisso com os crucificados deste mundo: “para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (Jo 3, 15). Abaixar a cruz ou mesmo retirá-la de diante de nós, não ter um compromisso evangélico e ser um cristão apático frente ao anúncio do Reino, é a mais perigosa e ameaçadora investida contra a autêntica evangelização.

Paulo enfrenta essa tentação quando denuncia aos gálatas: “Ó gálatas insensatos, quem vos fascinou, a vós ante cujos olhos foi desenhada a imagem de Jesus Cristo crucificado?” (Gl 3,1s). A insensatez dos que buscam a glória e a vitória (do ressuscitado) rejeitando o sinal inconfundível da luta e da batalha (do crucificado) configura a expressão mais alienada de quem se diz cristão, pois rejeitam a luz que vem da cruz: “os homens preferiram as trevas à luz, suas obras são más” (Jo 3, 19).

Nós, cristãos deste nosso tempo, sabemos decifrar a mensagem positiva da cruz? Ou ancoramos alienados no fascínio da intolerância (politica e religiosa), da impiedade e do egoísmo que destroem as relações e a própria vida? Como nos posicionamos na história: defendendo os crucificados ou os crucificadores?

“Se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3, 5).

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