Padre Edjalmir Silva Sousa: “Por causa de um certo Reino…”

Da Redação com Ascom. Publicado em 22 de março de 2021 às 23:35.

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Foto: Ilustrativa/ Arquivo

Já nos aproximamos da Festa da Páscoa de Jesus, a Liturgia da Palavra nos recorda a dinamicidade do amor de Deus que sempre atualizou a sua Aliança, tornando-a acessível e renovando-a para melhor. Assim, Deus não complica a acessibilidade ao Reino (cf. Mt 5. 3-16), mas ao contrário, torna-se próximo do ser humano, com respeito e empatia assume as nossas dores  (cf. Is 53, 4) e, a partir delas, fala ao coração. 

A Nova Aliança não tem característica de códigos ou militância de pautas moralistas, mas simplesmente a escreve num coração que é capaz de amar “todos saberão que vocês são meus discípulos se vocês amarem uns aos outros” (Jo 13, 34-35). Dom Helder Câmara dizia que “o amor é perfume das almas”.

Enquanto mais perto do evento da Paixão mais o discípulo é chamada a compreender que só entende a linguagem de Jesus, quem um dia experimentou o amor (cf. 1 Jo 4, 8). Por isso, a conversão não se dá apenas numa mudança de filosofia de vida, mas tem inicio no coração, como canta o Salmo 50 (51),“criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido”!

A primeira leitura (Jr 31, 31-34) diz que ao falar ao coração, o Senhor estabelece uma relação tão intima com o ser humano que não haverá mais a necessidade de procura-Lo fora, mas dentro dele. Assim, é necessário limpar e tirar do coração toda a maldade, todo o preconceito, toda a frieza, sentimento de vingança, orgulho, egoísmo, falsidade, cinismo, injustiça, idolatria do poder e das riquezas, os anseios triunfalistas e deixar que o Espirito de Deus fale (cf. Jo 16, 13). 

“Gostaríamos de ver Jesus” (Jo 12, 21). O pedido daqueles gregos citados no evangelho deste domingo, é também o nosso, nós também temos sede de Deus (cf Salmo 42 (41) 2). A resposta a esse anseio é indicada por Jesus no evangelho, Ele diz o momento no qual será visto e conhecido por todos: “chegou a hora em que o Filho do Homem será glorificado” (v. 23). Veremos e encontraremos Jesus em sua glória. 

E o que é a glória? A glória de Jesus, segundo São João, é o momento da sua morte, por isso Ele mesmo declara: “se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo, mas, se morre, então produz muito fruto” (v. 24). Ele aponta o caminho de sua Paixão, como lugar teológico, pastoral e existencial – em tudo aquilo que ela significa – para saber quem Ele é (cf. Mt 27, 54).

Os gregos pedem para ver Jesus, mas é o Pai quem vai mostrá-lo. Por isso, naquele momento, antecipa-se a hora de Jesus quando se escuta a voz do céu: “Eu o glorifiquei” (Jo 12,28). É uma referência à Encarnação: “E o Verbo se fez carne… E nós vimos a sua glória” (cf. Jo 1, 14). , “e o glorificarei de novo”, um anúncio da realização da hora de Jesus na cruz: “quando for elevado da terra atrairei todos a mim” (12, 32). Portanto, para entender a glória de Deus que se manifesta de modo concreto no seu Filho é preciso ir do presépio à Cruz. 

O  Mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus não pode ser entendido como um momento isolado de toda a sua vida, sem conexões com aquilo que significou os anos de sua missão, mas um ponto alto de uma causa. É importante estar atento a isso, pois é desse modo que Ele quer ser entendido e lembrado. 

Para compreender Jesus é preciso fazer um caminho catequético que necessita em primeiro lugar da ação do Espirito Santo “que ensinará todas as coisas” (cf. Jo 14,26), ou seja, não tem a ver com um estado de transe psicológico, mas de sabedoria e discernimento; e o auxilio da própria maturidade humana (re) elaborada à luz do Evangelho (cf. Jo 3, 1-21), como nos falou o evangelho de domingo passado. 

Sem ir ao calvário, ou seja, sem presenciar a manifestação da sua glória, da revelação do seu amor no ato extremo de sua doação na cruz, não será possível vê-lo realmente e saber quem Ele é “Vereis o céu aberto, e o anjos do céu subindo e descendo sobre o Filho do homem” (Jo 1,51). Contemplar aquele que foi traspassado é a condição indispensável para compreender tudo aquilo que Ele fez e ensinou.

O Cristo exaltado na cruz realiza o julgamento definitivo desse mundo. Pois no crucificado eleva-se tudo aquilo que o ser humano necessita para derrotar o mal, a injustiça, o pecado, por isso tem o poder de atrair todos a si. 

O pão que na Eucaristia se torna o corpo de Cristo não tem apenas significado de alimento e nem um mero símbolo de contemplação, mas traz em si a memória de todo o processo de como se tornou pão: é o resultado de um grão de trigo que caiu na terra, morreu, produziu fruto e que, depois de ser triturado, tornou-se massa e, finalmente, pão, alimento.

Pensar o pão apenas na sua fase final é colocar em risco o reconhecimento do seu valor inestimável, pois ele não chegou à mesa de forma mágica, fácil, mas é resultado de um árduo processo de vida e morte: “Quem se apega a sua vida perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna” (Jo 12, 25).  

O ethos de nossos dias nos ensina que não são pautas moralistas ou qualquer discurso sentimentalista que nos levam a Deus, nem tudo nos levam a Jesus, mas uma vida enraizada no amor e no serviço (cf. Ef 3,18). Aqui e ali, encontramos testemunhos bonitos de pessoas que estão fazendo de sua vida um serviço nobre ao bem comum e essa é a autêntica mensagem do evangelho. 

Todo bom cristão, seguindo os passos de Jesus, aprende com Ele que é preciso ter uma causa, por mais simples e humilde que seja (cf. Mateus 5, 9). O amor e o serviço ao próximo enobrece a vida. Mas há muita gente desperdiçando sua vida nos vícios, em intrigas ou bajulações tolas, perdidos em suas neuroses (no medo de ser quem deve ser com receio do que os outros vão julgar), nas coisas fúteis (a preocupação tola em ter um corpo sarado, diferente da busca pela saúde), na ostentação de riquezas. Todo isso nos faz pensar como Jesus gastava seu tempo? A cruz para Jesus não é um enfeite, mas um projeto de vida. Dom Helder dizia: “O segredo da eterna juventude é dedicar a vida a uma causa”. 

Você tem uma causa? 

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