Padre Edjalmir Silva Sousa: “Ele assumiu as nossas dores”

Da Redação com Ascom. Publicado em 28 de março de 2021 às 13:00.

Foto: Ascom

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Hoje a Igreja faz memória da entrada de Jesus em Jerusalém. Ao entrar na Cidade Santa montado num jumentinho, Jesus declara quem ele é, cumprindo assim a profecia de Zacarias: “Exulta, filha de Sião! Grita de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti: ele é JUSTO e VITORIOSO, HUMILDE, montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de jumenta” (Zc 9,9).

Em nossa profissão de fé há uma afirmação que não podemos esquecer: “E por nós (…), e para nossa salvação, desceu dos céus, e se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem.

Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as escrituras” (Símbolo Niceno Constantinopolitano).

Isso quer dizer que o Filho de Deus entra na história, na conflitividade humana, tem opções e posturas claras ao anunciar o Reino de Deus, e que sua morte e ressurreição tem que ser entendida dentro de seu significado histórico: “ele assumiu as nossas dores” (cf. Isaias 53, 4). Fica evidente a pedagogia de Deus – que não tem preocupações narcísica e triunfalista – que prefere não está acima de todos, mas no meio de todos. Será que isso nos diz alguma coisa?

Segundo os evangelhos, Deus não quer que seu Filho morra para satisfazê-lo, mas que não se evada da condição humana, que seja coerente com todo o projeto de sua vida, que não fuja dessa conflitividade quando assumiu a causa dos pobres e excluídos (cf. Lc 4, 18-21. Mt 5, 3-16).

Desvincular Jesus de suas próprias motivações históricas é uma nova forma de docetismo (heresia), que nega o fato de Jesus ter assumido a história humana com tudo o que ela significa. Quando fazemos isso não compreendemos a causa de sua morte e nos tornamos inimigos da Cruz (cf. Fl 3, 18).

O cristão “configurado a Jesus pelo batismo” (PUEBLA, 333), também é enviado por Cristo para assumir e aliviar as dores dos que sofrerem, conduzindo-os a esperança da plenitude da vida. Mas para isso é preciso que o cristão tenha a mesma pedagogia de Jesus: desceu, se encarnou, assumiu a humanidade, padeceu, crucificado, morto para depois ser ressuscitado.

O anuncio do Reino tem implicações históricas “Eu vim para que todos tenha vida e vida em abundancia” (Jo10,10) e tem sua conflitividade com os que são anti-Reino (cf Jo 32, 19). A hermenêutica da cruz (oscrucificados) denuncia os crucificadores de ontem, de hoje e sempre. Não é um discurso de polarização, mas de conversão (cf. Mc 1, 15).

Desde as primeiras comunidades cristãs se tem a consciência do real anúncio do Reino: “Os judeus pedem milagres, e os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos. Mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus”. (1Cor 1, 22-25).

Pregar Cristo crucificado – poder e sabedora de Deus – é não pregação sentimentalista e nem se prega o evangelho para aplausos, mas para anunciar a justiça e a santidade do Reino. A hermenêutica da cruz retira o significado docetista que muito tem muito tem sobre santidade.

Os cristãos não tem que ter medo de serem “escândalo” e “loucura” na interpretação do Reino como uma opção pelos crucificados, na proximidade e defesa (cf. Mc 5, 36. Mt 10, 28. Lc 5, 8. Atos 18, 9-10. Ap 2, 10.).

Não desanimemos com medo de não sermos capazes, olhemos para o Crucificado e sigamos em frente. Em todo lugar, tempo e cultura onde se milita a intransigência e a violência do anti-reino, onde se instalou a cultura de morte, deve-se ter coragem dizer: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz (…)” (São Francisco de Assis).

O papa Francisco, num discurso a Cúria Romana, recordou uma frase de Dom Helder, quando disse: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”. Deixemos que a mensagem da cruz de Cristo nos seduza: “Seduziste-me Senhor, e eu me deixei seduzir” (Jer 20, 7). Que a Cruz do Senhor seja fonte de esperança para todos nós nesses tempos difíceis.

CORAGEM.

“Hosana ao Filho de Davi

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