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A cultura do cancelamento e o poder do Evangelho 

Da Redação. Publicado em 16 de fevereiro de 2021 às 23:12.

Foto: Ascom

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A primeira leitura deste domingo deu-nos conta da situação social e religiosa do leproso. Para a ideologia oficial o leproso era um pecador e um maldito, vítima do castigo de Deus. A sua condição excluía-o da comunidade e impedia-o de frequentar ambientes públicos como a assembleia do Povo de Deus. 

Tinha que viver isolado, apresentar-se maltrapilho e avisar, aos gritos, o seu estado de impureza, a fim de que ninguém se aproximasse dele. Não tinha acesso ao Templo, nem sequer à cidade santa de Jerusalém, a fim de não poluir, com a sua impureza, o lugar sagrado. 

O leproso era o modelo do marginalizado, do excluído, do segregado. É uma lei religiosa que não salva, e que gera uma sociedade perversa.  É o que hoje chamamos da  cultura do cancelamento, prescrita na lei de Moisés (Antigo Testamento).

No evangelho (Novo Testamento) um leproso – marginalizado da comunidade santa do Povo de Deus, considerado pecador e maldito – vem “ter com Jesus”. Provavelmente tinham chegado até ele ecos do anúncio do “Reino” e a pregação de Jesus tinha-lhe aberto um horizonte de esperança. 

O desejo de sair da situação de miséria e de marginalidade em que estava mergulhado vence o medo de infringir a Lei e ele aproxima-se de Jesus. E preciso ter coragem evangélica para infringir quaisquer leis religiosa que não produz vida. É Jesus, com seu jeito de ser, que ensina isso.

Jesus, mediador da Nova Aliança, dá conta do seu desespero e mostra a sua decisão em mudar a sua triste situação. Uma vez diante de Jesus, o leproso é humilde, mas insistente, pois o encontro com Jesus é uma oportunidade de libertação que ele não pode desperdiçar. 

O que ele pretende de Jesus não é apenas ser curado, mas ser “purificado” dessa indignidade de pertencer à comunidade de Deus e à comunidade dos homens. Ele sabe que Jesus pode ajudá-lo a superar a sua triste situação de miséria, de isolamento e de indignidade.

A reação de Jesus é estranha, pelo menos de acordo com os padrões judaicos. Em lugar de se afastar do leproso e de o acusar de infringir a Lei, Jesus olha-o “compadecido”, estende a mão e toca-lhe (vers. 41). São os gestos provocativas de Jesus perante tradições  vazias. 

Jesus é apresentado, assim, como o Deus com um coração cheio de amor pelos seus filhos, que Se “compadece” face à miséria e sofrimento dos homens. Depois, o amor de Deus tornado presente em Jesus vai manifestar-se num gesto concreto para com o leproso. “estende a mão e toca-o”. 

É, evidentemente, um gesto “humano”, que manifesta a bondade e a solidariedade de Jesus para com o homem; mas o gesto de estender a mão tem um profundo significado teológico, pois é o gesto que acompanha, na história do Êxodo, as ações libertadoras de Deus em favor do seu Povo (cf. Ex 3,20;6,8;8,1;9,22;10,12;14,16.21.26-27; etc.). O amor de Deus manifesta-se como gesto libertador, que salva o homem leproso da escravidão em que a doença o havia lançado.

 Jesus está a infringir a Lei e, dessa forma, Ele denuncia uma Lei que criava marginalização e exclusão. Jesus, com a autoridade que Lhe vem de alto, mostra que a marginalização imposta pela Lei não expressa a vontade de Deus. 

O gesto de tocar o leproso mostra Deus não discrimina ninguém, que Ele quer amar e oferecer a liberdade a todos os seus filhos e que a todos Ele convida a integrar a família do “Reino”, a nova humanidade.

A purificação do leproso significa, em primeiro lugar, que o “Reino de Deus” chegou e que desmontam da teologia oficial (ideologia) que considerava o leproso um maldito. O Reino de Deus não pactua com racismos de qualquer espécie: não há bons e maus, doentes e sãos, filhos e enjeitados, incluídos e excluídos; há apenas pessoas com dignidade e que não devem, em caso algum, ser privados dos seus direitos mais elementares, muito menos em nome de Deus.

Estamos vivendo tempos de cancelamentos, seja de pessoas ou de conquistas sociais que foram inspiradas pelo evangelho. E, vergonhosamente, apoiadas por cristãos com mentalidade veterotestamentária. Até mesmo por pessoas que deveriam se comparecer de causas nobres, para além da sua fama ou desejo de poder dinheiro. 

Quem de nós não acompanhou está semana a polemica no Reality Show BBB21. Com personagens que deveriam dar exemplo de empatia. 

Silenciar diante do grito do outro ou zombar de sua dor tem sido algo constante. “Faço isso com ele por que aprendi de minha mãe que ficava um dia inteiro sem falar comigo, para que eu pensasse por que eu estava assim. (…) Toda vez que ele fala é abusivo”. (Karol Conka. Frase no Reality no Show BBB21). 

É assim que a lei dos extremistas pretende educar. Quando cresce faz a mesma coisa, sabe por quê? “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”. (Paulo Freire). E Jesus sabia disso. Hoje quando alguém grita ou pede ajuda, todos logo dizem: “está fazendo drama!” Esse não é o caminho do Evangelho.

Padre Edjamir Silva Sousa

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