Saúde mental: mais do que tabu, uma urgência para a vida saudável

Da Redação. Publicado em 22 de janeiro de 2021 às 19:05.

Foto: Reprodução

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Não é batido falar diversas vezes sobre um assunto quando este é saúde, e esta máxima inclui tanto a física quanto a mental. Especificamente sobre este último assunto é que o PARAIBAONLINE se propõe a tocar, com o intuito de alertar para os problemas psíquicos cada vez mais presentes na sociedade.

Estamos no mês que enfatiza a importância dos cuidados com a saúde mental. O Janeiro Branco não deve ser apenas mais uma campanha para se usar um laço fixado na blusa, mas um grande alerta diante dos numerosos casos de doenças mentais que acometem a população, especialmente a ansiedade e a depressão. Estes se intensificaram ainda mais devido à pandemia do novo coronavírus, que ainda está atuante.

Em março do ano passado, a Associação Brasileira de Psiquiatria advertia que a pandemia traria uma quarta onda relativa às doenças mentais. E o que poderia ser só teoria, se confirmou.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) colocam o Brasil como o segundo país das Américas com o maior número de pessoas depressivas, correspondendo a 5,8% dos casos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, que representam 5,9%. Esta doença afeta 4,4% da população mundial. Já com relação à ansiedade, o Brasil ainda é o país com o maior índice de doentes do mundo, com 9,3%.

Apesar de existirem outros tipos de doenças da mente, a ansiedade e a depressão são as duas principais causas para o atendimento psiquiátrico. O médico campinense Luan de Melo Brito explicou que elas são patologias distintas, mas muitas vezes andam de ‘mãos dadas’. Geralmente, quem apresenta sintomas de uma delas, também apresenta da outra. Isso equivale a algo em torno de 85% dos casos que chegam aos ambulatórios.

Foto: Arquivo Pessoal

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De acordo com o psiquiatra Luan Brito, ambas se confundem porque são transtornos do humor.

“A ansiedade é distinta do medo e está relacionada a uma apreensão em relação a fatos do futuro. Já a depressão é um transtorno totalmente diferente, cursa com o humor deprimido. É o paciente que não tem mais prazer de realizar as atividades que anteriormente tinha, que vive triste, pode ter choro, pode ter sentimento de inutilidade. Às vezes, há alteração do sono, tanto para hipersonia quanto para insônia, além de alteração do apetite. Também pode estar associada com pensamentos suicidas e até haver psicose”, afirmou.

Luan de Melo confirmou que realmente, durante a pandemia, os casos de ansiedade e depressão aumentaram significativamente, tanto surgindo casos novos, como agravando outros já existentes.

“A pandemia tem servido como um gatilho, principalmente pela questão do medo de pegar a doença, pela questão econômica, pela reclusão e pela mudança social causada. Ninguém estava preparado para isso: ter que ficar em casa e cumprir um distanciamento social. A última pandemia que houve na Terra foi há mais de cem anos”.

Mesmo diante do aumento dos casos e da procura pelo atendimento psiquiátrico, ainda há um grande tabu social diante das doenças da mente. A procura por um tratamento e a dependência da medicação são exemplos deste.

Sobre o assunto, o médico garantiu que, excluindo-se os efeitos colaterais que qualquer remédio pode causar no início de algum tratamento, nenhum antidepressivo receitado pelo psiquiatra tem o potencial de causar dependência ou dopar o paciente.

Psicoterapia

O tratamento contra essas doenças vai além do uso de medicamentos. A ansiedade e a depressão são doenças crônicas e associar o fármaco com a psicoterapia, por exemplo, pode ser uma boa alternativa para se livrar dos sintomas.

Para a psicóloga e psicanalista Marília Gabriela Bezerra, muitos pacientes chegam ao consultório com quadro ansioso-depressivo, ou só ansioso. Diante desse prognóstico, e com autoconhecimento, clareza sobre as emoções e mudanças de hábitos, é possível fazer com que o indivíduo tenha uma vida normal.

Foto: Arquivo Pessoal

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– Embora cada caso seja particular, em geral, os benefícios que se pode esperar de um processo psicoterápico são: desenvolvimento do autoconhecimento, bem como melhor entendimento e clareza sobre as emoções e comportamentos. Dessa forma, o sujeito passa a se conhecer melhor, tendo uma maior maturidade emocional para gerenciar seus sentimentos, passando assim a ter maior facilidade em lidar com situações relacionais no seu dia a dia, aprimorando o seu manejo na resolução de conflitos e dificuldades relativas a áreas específicas, promovendo, assim, dentro de um todo, uma maior satisfação com a vida – explicou.

Ela lembrou que a psicoterapia, além de promover o autoconhecimento, dá ao paciente um espaço de fala, livre de qualquer julgamento e preconceito, onde suas angústias podem ser ressignificadas.

– O sujeito passa a se reinventar e começa a enxergar suas dores, suas questões e suas ‘repetições’ com um outro olhar e, acima de tudo, com entendimento, tendo em vista que ele passa a compreender os seus porquês, o que o faz agir daquela forma e qual motivo de tais situações lhe gerarem sofrimento. O tratamento medicamentoso, embora seja eficaz, não consegue promover uma modificação nos hábitos de vida do sujeito e na forma com que ele se enxerga e enxerga seus problemas. Sendo assim, a psicoterapia é primordial para que haja de fato uma evolução do sujeito e uma melhora consistente do seu quadro – frisou.

As doenças da mente não devem ser tratadas como ‘falta de Deus’

Estigma

Ao contrário do que muitas vezes afirma o senso comum, as doenças da mente nunca devem ser tratadas como casos de frescura, ‘falta de Deus’ ou menosprezadas pelo indivíduo e seus amigos e familiares.

Para ambos os profissionais ouvidos pelo PARAIBAONLINE, é mais do que importante a pessoa estar atenta a sintomas que anteriormente não possuía, como os citados no início da reportagem, e nunca se achar autossuficiente. Também é importante contar com o auxílio da família, seja para alertar sobre as mudanças ou, principalmente, para procurar ajuda especializada.

Para além destas patologias, a mente humana pode ser acometida com outros tipos de doenças, como: esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar, déficit de atenção e hiperatividade, distúrbios relacionados à dependência química e álcool. Seja qual for caso, o importante é lembrar sempre que a saúde mental é mais do que uma necessidade, é uma urgência social.

*Reportagem de Lidiane Neves

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