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Agente comunitária usa cordel para ensinar protocolo de saúde

Da redação com Folhapress. Publicado em 26 de outubro de 2020 às 8:40.

Foto: Ilustrativa

Foto Ilustrativa: Reprodução

DHIEGO MAIA E KARIME XAVIER
Pio IX, PI (FOLHAPRESS) – Toda vez que sente uma vontade de desabafar, Maria Marilene do Monte Carvalho, 45, escreve um cordel para si mesma.

Os cordéis com cara de diário já retrataram as dificuldades da seca, os percalços enfrentados na criação dos três filhos e o período em que ela ficou separada do marido quando este era alcoólatra.

Como os versos, segundo ela, servem para aliviar a cabeça das preocupações, são descartados assim que finalizados. “Isso me ajudou a não ter depressão, a não tomar remédio controlado e nem pensar em morrer.”

Mas o talento com o gênero literário tão popular no Nordeste, que explora as rimas e outros recursos musicais de nossa língua para contar uma história, não ficou restrito a seus desabafos pessoais.

Ela tem usado o cordel como uma ferramenta de trabalho para manter seus conterrâneos informados sobre o novo coronavírus. E essa ideia surgiu de um hábito antigo e necessário: escutar o outro.

Há 20 anos que ela trabalha como agente comunitária de saúde na pacata Pio IX, cidade de 18 mil habitantes no Piauí, distante a 444 km da capital Teresina.

Carvalho conta que queria mesmo era ser professora. Mas, durante o curso de pedagogia, percebeu que poderia unir a didática com o trabalho em uma UBS (Unidade Básica de Saúde).

Nascia, ali, a agente de saúde “diferentona”, como costuma ser chamada pelos colegas de profissão. “Eu gosto de criar. Não consigo fazer só o feijão com o arroz”, fala.

Na pandemia, o trabalho dos agentes de saúde ganhou destaque. São eles os responsáveis por monitorar os casos suspeitos de Covid-19 e isolar os moradores contaminados.

Pio IX não tem infraestrutura de saúde para tratar doenças de média e alta complexidade como os casos graves de Covid-19.

Com apenas uma UBS, o município transfere de ambulância para a vizinha Picos, a 125 km de distância, os pacientes que necessitam tratamento especializado
Pio IX contabilizava até sábado (24), 184 casos de pessoas infectadas e dois óbitos por Covid-19, segundo boletim epidemiológico da Secretaria de Saúde do Piauí.

A literatura de cordel entrou na batalha contra a doença quando a agente de saúde notou uma reclamação comum entre as 167 famílias que atendia. “Ninguém estava entendendo as informações repassadas pela mídia sobre o coronavírus”, diz.

O noticiário, segundo Carvalho, também ajudou a criar um clima de pânico que atrapalhou seu contato com as famílias. “Uma mãe chegou a dizer: esse é momento de fazer visita?”, lembra.

Foi, então, que a agente de saúde se lembrou do cordel.

Bem antes da pandemia, os versos de Lene, como ela é conhecida entre os pio-nonenses, já abordavam temas como prevenção ao câncer de mama e de próstata, questões ligadas à amamentação e sobre gênero e sexualidade.

A agente de saúde tem uma filha lésbica e escreveu um cordel contando como lidou com a revelação da filha sobre a orientação sexual dela. Numa palestra para adolescentes, leu o texto e uma garota se sentiu pronta para “sair do armário”. “Toda a turma dela chorou muito”, lembra.

Os cordéis pandêmicos fizeram barulho na pequena Pio IX. A dona de casa Ana Patrícia da Costa, 31, conta que sua mãe, Antônia Matilde Vieira, 85, só conseguiu entender que precisa usar máscara após escutar os versos dela.

“É uma linguagem mais próxima da gente, explicada. Não tem como não entender o conteúdo”, afirma Joana Teresa de Souza Rodrigues, 32.

No cordel de título “#FiqueEmCasa”, a agente de saúde escreveu: “O que é o coronavírus/ é um vírus que causa infecção/ ataca o sistema respiratório/ causando danos ao pulmão/ o vírus chega até você/ através de suas mãos”.

Já em “Faça Sua Parte”, ensinou sobre a importância do isolamento social: “Não ache que é besteira/ siga as orientações/ evite lugares fechados/ e com aglomerações/ só sai se necessário/ essas são as recomendações”.

Por falta de dinheiro para imprimir os livretos, os primeiros cordéis foram lançados em vídeo e enviados por aplicativo de mensagem a cada uma das famílias.

“Houve uma aproximação que eu não imaginava. Se antes eu via essas famílias uma vez por mês, a gente passou a ter contato quase que diário. O cordel apaziguou os ânimos mais exaltados”, avalia.

Depois, o projeto conseguiu a ajuda de um patrocinador e foi possível imprimir 150 unidades, já esgotadas, do cordel “#FiqueEmCasa”.

O projeto de Carvalho concorre a um prêmio da Opas (braço da Organização Mundial da Saúde para as Américas) que reconhece iniciativas inovadoras para conter o novo coronavírus.

E ela já tem planos para os próximos versos: falar sobre a realidade de sua gente.

A falta de perspectiva de vida, segundo ela, tem levado muitos homens ao alcoolismo, e feito com que mulheres recorram a ansiolíticos sem prescrição médica.
Valdir Gregório da Silva, 48, era um que vivia bêbado pelas ruas da cidade após a mãe falecer. Antes, ele trabalhava assando castanha de caju.

Sua família suspeitava que um dia ele adoeceria por causa do consumo excessivo de álcool, mas não esperava que ele fosse morrer de Covid-19.

No fim de agosto, ele foi levado em estado grave para Teresina (PI) e não resistiu. Duas semanas após a morte do irmão, Raimunda Maria da Silva, 55, contava, chorando, que ainda estava difícil encarar a realidade e olhar para as coisas que pertenciam a ele.

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