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Alexleide Santana Diniz: Ser mulher no Brasil

Da Redação*. Publicado em 10 de setembro de 2020 às 10:33.

De uma forma simples e direta: ser mulher no Brasil representa a certeza de que você nunca será dona do seu próprio EU! Será que estou exagerando, sendo dramática, pessimista ou realmente estou apenas sendo realista? Vamos refletir!?

Para a grande maioria das meninas, a infância é marcada pela necessidade, quase obrigatoriedade, de aprender tarefas domésticas para ajudar nas tarefas de casa. “Funciona como uma aprendizagem para que cuide, no futuro, do seu lar”. Ensina-se a aprender bons modos e a brincar de bonecas, para saber cuidar dos seus filhos quando se tornar mamãe. Você escuta que também deve estudar para que tenha uma profissão na vida adulta.

Ao iniciar a segunda fase da vida, a adolescência, a menina já experiencia, também, novos modos de interação social que demarcam lugares de existência. É a fase de fazer amigos, desde que sejam aprovados por sua família, alegando-se que não há maturidade para escolher as amizades. Namorar? Pode sim. Mas, para isto, os pais devem aprovar, pois se alega ser muito jovem para fazer tal escolha. Viajar? Pode sim, desde que acompanhada por um adulto responsável.

Nesta fase da vida, o ponto mais importante, de acordo com os padrões da sociedade, é cuidar da sua reputação para poder casar. Afinal, o modelo social que impera em nosso país considera o casamento como o passo mais importante e decisivo na vida de uma mulher. Não importa a raça, a religião ou a etnia, chegando à idade adulta a mulher deve casar-se. O casamento é o topo do sucesso para a sociedade. Mas para a mulher, essa etapa pode ser o ponto final de muitos dos seus sonhos.

No contexto do casamento, a mulher segue prestando contas ao conjugue e à sociedade. Ela precisa da autorização do seu marido para tomar as decisões de sua própria vida, seja na esfera profissional ou na pessoal. Nunca se deve “envergonhar” o esposo diante da sociedade. As decisões precisam seguir certo padrão que é imposto pelo modelo social. Então, em mais uma etapa da vida a menina/mulher está recebendo “ordens”. Preferencialmente, ela deve estar em posições inferiores àquelas assumidas pelo homem, pois o marido não pode sentir-se “humilhado”.

Se pensarmos no mercado de trabalho, são diversas as exigências para que a mulher possa ser inserida. Posso destacar, além da qualificação, a aparência: a mulher precisa atender a padrões impostos, como ser “bonita” e “vestir-se bem”. Mas ela não pode ser “sensual”. Deve encontrar a medida certa: não usar maquiagem em excesso nem de menos, cabelos e unhas devem estar impecáveis. Além desses “detalhes”, precisa ser altamente competente e estar disposta a receber salários inferiores em detrimento dos de seus colegas do gênero masculino. A disputa por uma vaga com pessoas do gênero masculino é quase sempre desleal. E ainda são obrigadas a ouvir comentários maldosos, como: “homens não tiram licença maternidade”. Elas sofrem diversos tipos de assédio, dentre outras faltas de respeito.

Se não bastassem todas essas situações, ainda existe o grave problema da violência contra a mulher, que ocorre diariamente, tanto a violência física como a psicológica. Pierre Bourdieu já nos chama a atenção sobre a “dominação masculina”, sobre a violência simbólica que é tão naturalizada nas práticas cotidianas. Nem dá para se quantificar a violência, mas sabe-se que muitas mulheres sofrem diuturnamente até a morte. Quanto à violência física, pesquisas mostram que há 536 casos por hora no Brasil e quase a mesma proporção de mulheres que dizem ter sido vítima de algum tipo de violência sexual.

Dados divulgados pela BBC News Brasil, 24/08/2020, nos últimos 12 meses, mostram que 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil, enquanto 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio. Dentro de casa, a situação não foi necessariamente melhor. Entre os casos de violência, 42% ocorreram no ambiente doméstico. Após sofrer uma violência, mais da metade das mulheres (52%) não denunciou o agressor ou procurou ajuda.

Essa triste realidade mostra-nos que não existe um lugar seguro para a mulher. Ela está sofrendo violência dentro de casa! Quando pega o metrô para ir para o trabalho, por exemplo, também é assediada. É importante destacar que as mulheres pobres e pretas são mais atingidas por todas as formas de violência. Esses fatos evidenciam a necessidade de lutarmos contra a misoginia, combatermos o racismo e brigarmos por melhorias nas condições econômicas das mulheres pretas, que em geral, vivem em condições piores do que a média das mulheres brancas.

A discriminação, o racismo e o preconceito, que tanto assolam as minorias, incluindo as mulheres brasileiras, são frutos de um legado escravocrata que nunca foi solucionado no país ou mesmo evidenciado como problema social relevante. Isso tudo converge para um indicativo de que a mulher continua sendo sufocada, emudecida pelo machismo que está enraizado no modelo de sociedade patriarcal. Isto mudou pouco ou quase nada ao longo da história. Nós, mulheres, precisamos continuar lutando por respeito, igualdade, pela vida e por nosso próprio protagonismo. Precisamos tomar a direção das nossas vidas, falar de dentro das circunstâncias, fortalecer a nós mesmas. Exigimos o controle do nosso EU!

Alexleide Santana Diniz Soares
(Mulher Geógrafa)

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