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Estudo da UFPB avalia impactos do isolamento na saúde mental da comunidade LGBTTQI+

Da Redação com Ascom. Publicado em 13 de junho de 2020 às 17:22.

Uma pesquisa realizada pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Saúde Mental, Sexualidade e Gênero da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) investiga os impactos que o distanciamento social pode causar na saúde mental da comunidade LGBTTQI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Queers, Pessoas Intersex e demais identidades).

Segundo o estudo, coordenado pela professora Sandra Aparecida, com o apoio dos pesquisadores José Abraão, Ivoneide Lucena, Ana Pedrina e Rayane Neves, a qualidade de vida emocional dessa população pode ser agravada em um contexto de aumento das violências físicas, psíquicas e sexuais na quarentena, devido à pandemia do novo coronavírus.

De acordo com Rayane Neves, o trabalho pretende levantar, através de um formulário on-line, quais as principais situações de violência a comunidade LGBTTQI+ está passando.

Serão analisados fatores como a prevalência dessa violência, o sujeito que a prática e principalmente se essas situações se agravam durante o período de distanciamento social.

“Podem participar pessoas da comunidade LGBTTQI+ que tenham idade entre 15 e 64 anos. Já colaborou gente do Amazonas, Pará, São Paulo e há grande percentual de participação de paraibanos, onde iniciamos o projeto”, conta a pesquisadora.

“Estamos divulgando nosso formulário para alguns grupos LGBTTQI+, como a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT) e a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ANTRA). Esperamos que a pesquisa se propague mais e mais, com o objetivo principal de formular conhecimento nesse período atípico que vivenciamos”, diz Rayane.

A partir das respostas, os pesquisadores vão analisar, quantitativamente, variáveis como identidade de gênero e sexualidade, relacionando-as aos sintomas de transtornos mentais comuns. Além disso, pretendem estudar as violências físicas, psíquicas e sexuais e aspectos sociodemográficos e econômicos.

Conforme Rayane Neves, a pesquisa se encontra em sua fase inicial de coleta de dados, de produção de material bibliográfico e de formulação sobre a temática. “Esperamos que seja finalizada em um ano e que os resultados dela sejam positivos para o estudo desenvolvido pelo grupo de pesquisa”.

O trabalho é um dos pioneiros sobre saúde mental da comunidade LGBTTQI+ durante a pandemia. Rayane relata que só tem conhecimento de apenas mais um grupo que se organizou para investigar essa problemática. Contudo, frisa que cada pesquisa se estrutura e tem dados diferenciados a partir da sua amostra.

“É bom que outros grupos também estejam cientificamente preocupados com a qualidade de vida desta comunidade específica, de forma que possamos comparar estatísticas e debater sobre as realidades registradas. Produzir cientificamente dados para esta pesquisa é crucial, uma vez que passamos por um período de subnotificação no nosso país, com uma crescente ideológica neofacista em nossa política”.

Foto: Reprodução/Unsplash/Steve Johnson

Foto: Reprodução/Unsplash/Steve Johnson

Vulnerabilidade

De acordo com dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), a cada 20 horas, ocorre uma morte por Lgbtfobia no Brasil. O grupo registrou a ocorrência de 329 mortes violentas de LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) no ano passado, sendo 297 homicídios e 32 suicídios.

Na contabilização dessas mortes, foram notificados 174 gays (52,8%), 118 travestis e transsexuais (35,8%), 32 lésbicas (9,7%) e 5 bissexuais (1,5%). LGBT é uma sigla que abrange menos identidades do que LGBTTQI+.

O relatório aponta que, em termos relativos, as pessoas trans representam a categoria mais vulnerável a mortes violentas. Se há um milhão de travestis e transsexuais no país, como se estima, esse total de 118 mortes sinaliza que o risco de uma pessoa trans ser assassinada é aproximadamente 17 vezes maior do que um gay.

“Segundo James Wareham, em território brasileiro, acontecem mais da metade dos assassinatos da comunidade LGBTTQI+ do mundo. Esse dado nos preocupa enquanto pesquisadores e seres humanos. Precisamos produzir cientificamente conhecimentos que venham a expressar o quanto é necessário pararmos de assassinar por questão de gênero e sexualidade no nosso país”, defende Rayane.

A estudante da UFPB conta ainda que é um tema pouco ou nada explorado nos currículos da área da saúde, sobretudo, da Enfermagem.

“Poder compartilhar essa realidade com outros estudantes e pesquisadores ajudará a minimizar o sofrimento e quem sabe a violência contra essas pessoas. Para a sociedade, é importante, pois poderá lançar luz a situações de vida de uma população que ainda é invisibilizada”.

Segundo Rayane Neves, o grupo de pesquisa da UFPB tem a convicção de que esse período de distanciamento social estreita as relações pessoais, deixando essa parcela da população mais suscetível a situações de violência.

O Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou, em junho do ano passado, a criminalização da LGBTfobia, sendo caracterizada por todo tipo de repulsa, preconceito, cerceamento de direitos e atos violentos contra pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros ou travestis.

Discriminar uma pessoa por sua orientação sexual e de gênero, agora, é crime inafiançável, imprescritível e que pode ser punido com multa ou até cinco anos de prisão, de acordo com a lei 7716/89.

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