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Protesto de torcedores em São Paulo acaba em confronto com a polícia

Da redação com Folhapress. Publicado em 31 de maio de 2020 às 19:24.

Foto: Eduardo Knapp/Folhapress

Foto: Eduardo Knapp/Folhapress

SÃO PAULO, SP, E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Integrantes de diferentes torcidas organizadas dos quatro grandes clubes de São Paulo (Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo) organizaram atos pró-democracia na avenida Paulista neste domingo (31).

As manifestações, que começaram pacíficas, acabaram em confronto com a Polícia Militar (PM) e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A via tem sido ponto de encontro de bolsonaristas aos domingos. Eles pedem principalmente o fim das medidas de distanciamento social durante a pandemia de Covid-19 e protestam contra o STF (Supremo Tribunal Federal) e o Congresso.

Neste fim de semana, havia o temor de um possível confronto dos corintianos com torcedores palmeirenses identificados com o presidente da República, o que não ocorreu.

Isso porque, no último domingo (24), alguns palmeirenses se reuniram na saída da estação Trianon-MASP do metrô e tiraram uma foto postada nas redes sociais com a legenda “Deus, Pátria, Família e Amigos! Odiamos gambá, estamos esperando vocês”, em referência aos rivais.

Apesar das ameaças, os atos deste domingo começaram de forma pacífica, por volta das 12h, com gritos contra Bolsonaro inspirados em cânticos dos estádios.

A maioria dos presentes era torcedores do Corinthians, mas um grupo de fãs do Palmeiras, autodenominados antifascistas, também se manifestou no local. Havia ainda, em menor número, são-paulinos e santistas.

A Polícia Militar criou um cordão humano para tentar isolar um grupo de manifestantes pró-Bolsonaro dos torcedores, mas houve pelo menos dois picos de confusão após discussões entre as partes.

A tropa de choque da PM utilizou bombas de gás e balas de borracha para dispersar o movimento de torcedores. Estes revidaram com arremesso de pedras, lixeiras e rojões. Pelas imagens disponíveis até o momento, não houve repressão dos policiais ao grupo bolsonarista.

Na ação, um fotógrafo da agência Efe foi ferido na perna. Ainda não há registros oficiais de detidos e outros feridos.

Danilo Pássaro, 27, integrante da Gaviões da Fiel que organizou as manifestações, disse à reportagem que a confusão começou quando os torcedores já se preparavam para deixar o local.

“A polícia passou escoltando um grupo com camisetas de organizações neonazistas e outro com fardas de militares, dando simbolismo de intervenção militar. Passaram bem no meio da nossa manifestação quando estávamos indo embora. Isso iniciou o tumulto, e a polícia começou a atirar bombas e balas de borracha”, afirmou.

Torcedores relataram que houve excesso dos policiais contra o grupo.

Em entrevista à CNN Brasil o coronel da PM Camilo Batista disse que que conflito começou porque portadores de bandeiras neonazistas investiram contra manifestantes. Ao G1 ele afirmou que não é possível saber que começou a confusão: “As imagens, os atos, analisando claramente vamos saber quem começou. A polícia vai agir agora para manter a ordem. Não interessa o grupo, não interessa o lado.”

Enquanto recuavam, os torcedores fizeram barricadas e colocaram fogo nos objetos. A estação Trianon-Masp do metrô foi fechada em razão do confronto na avenida.

Foto: Pam Santos @soupamsantos

Foto: Pam Santos @soupamsantos/Fotos Públicas

A mobilização política de torcedores começou a ganhar força desde o último dia 9 de maio, quando um grupo de cerca de 40 corintianos, com faixas a favor da democracia, se manifestou em frente ao Masp. A presença deles intimidou grupos pró-Bolsonaro, que inicialmente haviam marcado um ato perto do museu.

Em outros estados, como Rio de Janeiro e Minas Gerais, torcedores que se autodenominam antifascistas convocaram manifestações a favor da democracia e contra Bolsonaro.

No Rio de Janeiro, na orla de Copacabana, torcedores de uma organizada chamada Fla Antifascista faziam um protesto pacífico na manhã deste domingo (31) quando encontraram membros de uma manifestação a favor de Bolsonaro.

Os dois grupos se estranharam, e a polícia utilizou spray de pimenta para dispersar os torcedores flamenguistas. Depois, um outro grupo, que protestava contra o racismo, foi às vias de fato com bolsonaristas em Copacabana.

Os defensores do governo entoavam gritos que questionavam a gravidade da pandemia e o associavam a uma ditadura comunista. A manifestação continuou após a chegada da PM.

RELAÇÃO DAS ORGANIZADAS
Por mais que muitos desses grupos tenham apoio de dirigentes das torcidas organizadas, não é possível dizer que as representem como um todo. De forma geral, as uniformizadas têm evitado se posicionar politicamente, pelo menos de forma oficial.

A visão de presidentes e ex-presidentes de torcidas ouvidos pela Folha é a de que a maior parte dos seus integrantes apoia o governo Bolsonaro.

“Somos em 120 mil gaviões associados, cada qual com sua opinião, seja de direita, esquerda, centro e até o perdido, mas o objetivo é defender a democracia, porque todo cidadão brasileiro com lucidez sabe o que é o militarismo”, disse Pássaro.

“Não vamos nos meter com a política, temos todos os lados dentro da Independente e cada um age como quiser”, afirmou Henrique Gomes, o Baby, da Independente, a principal organizada do São Paulo.

A Mancha Alviverde, maior torcida do Palmeiras, time que tem a torcida de Jair Bolsonaro, escreveu em suas redes sociais neste sábado, em publicação sobre doação de equipamentos de higiene e máscaras: “O governo te esquece, mas a Mancha, não!”.

Para o juiz Ulisses Augusto Pascolati Junior, à frente do Anexo de Defesa do Torcedor, do Juizado Especial Criminal em São Paulo, as manifestações dos torcedores são válidas desde que ocorra de forma pacífica e que não tenha referências antidemocráticas.

“O Estado não pode intervir enquanto os grupos estiverem manifestando opiniões políticas, o que é legítimo e constitucional”, afirma o magistrado.

Nas redes sociais, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) disse em sua conta no Twitter que o Brasil deveria classificar grupos antifascistas como organizações terroristas -o antifascismo, no entanto, é uma posição política, e não uma entidade ou partido.

Ao postar no Twitter mensagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em que ele defende essa medida, o parlamentar brasileiro escreveu: “Aqui eles se fantasiam de torcida organizada, mas todos sabemos que querem é desordem, baderna e confronto com manifestações pacíficas”.

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