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Confusão e bate-boca no ‘Calcinhaço’ realizado no plenário de Assembleia Legislativa

Folhapress. Publicado em 3 de março de 2020 às 21:54.

Foto: Ascom

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JOELMIR TAVARES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Segurando um varal cheio de calcinhas (novas, frisaram as organizadoras), mulheres foram à Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul durante a sessão desta terça-feira (3) para o “Calcinhaço da Democracia”, um protesto contra o machismo e por mais presença feminina na política.

A Casa – única do país sem deputadas, com todas as 24 cadeiras ocupadas por homens – virou alvo de grupos feministas após falas de parlamentares contra o Carnaval que foram consideradas preconceituosas.

O ato tumultuou o prédio do Legislativo e teve bate-boca entre manifestantes e o deputado Professor Rinaldo (PSDB), que virou o principal alvo delas depois de ter citado a peça íntima feminina em um discurso sobre o Carnaval, na semana passada.

Na ocasião, o tucano fez críticas ao incômodo causado pela festa a um culto evangélico na capital Campo Grande. “As cenas que foram apresentadas ali foram terríveis, degradantes. Pessoas urinando em frente ao culto. Teve mulheres que tiraram a calcinha”, disse, pedindo respeito àqueles “que professam a sua fé”.

O grupo de cerca de 30 participantes do “calcinhaço” recebeu Rinaldo com vaias. Interrompido várias vezes pelos gritos que vinham do auditório, o deputado, que é da bancada evangélica, demonstrou irritação na tribuna e disse ter havido “um prejulgamento sem ouvir a verdadeira história”.

“Eu acredito que a mulher sul-mato-grossense educada fica com vergonha”, afirmou, dirigindo-se às manifestantes, que rebateram. Ele falou também estar constrangido com a reação. “Pegaram uma frase e criaram uma confusão danada.” Com o clima conflagrado, a sessão foi suspensa.

Como as cadeiras do público ficam separadas do plenário apenas por uma divisória de vidro baixa, as participantes do ato ficaram próximas dos deputados. Alguns deles ficaram parados, observando. Uma calcinha vermelha chegou a ser jogada no espaço dos parlamentares e foi recolhida por um segurança.

A fala de Rinaldo que suscitou o levante foi lembrada várias vezes. Para as mulheres, trata-se, na verdade, de uma “suposta calcinha encontrada”, já que a história não teria sido bem explicada nem teriam aparecido provas de que uma peça foi deixada na igreja evangélica frequentada pelo deputado.

O tucano também disse nesta terça que recebeu o apoio de muitas famílias, que entenderam sua crítica aos transtornos do Carnaval. A declaração, porém, não foi bem recebida. Em resposta, as manifestantes falaram que também têm família e exigiram um pedido de desculpas, sem sucesso.

Em jogral, elas afirmaram que “não há nada de pejorativo ou errado numa peça feminina” e que a calcinha foi usada no ato “como representatividade da mulher e seu corpo, uma provocação aos parlamentares” para que ele se acostumem “com a presença feminina e seus símbolos”.

Reclamaram da ausência de mulheres na Assembleia e pediram mais atenção a pautas como o combate à violência de gênero.

Versos como “machistas, fascistas, não passarão” e “estão com medo de calcinha” também foram entoados em coro. No fim do ato, um grupo menor gravava um vídeo e repetia: “Ninguém solta a mão de ninguém”, no que uma das mulheres completou: “E nem a calcinha”.

O protesto foi organizado por integrantes de movimentos feministas e integrantes de partidos de esquerda como PSOL e PT. Quando elas chegaram ao Legislativo, policiais montados a cavalo faziam a guarda externa do prédio.

“A minha calcinha ofende a sua misoginia?”, “não há democracia sem a presença da mulher” e “lute como uma mulher” eram algumas das mensagens nos cartazes empunhados pelas ativistas.

Segundo as mobilizadoras, todas as calcinhas usadas na manifestação foram doadas a mulheres em situação de rua. Parte das organizadoras também está engajada na preparação de atos no próximo sábado (8), quando se comemora o Dia Internacional da Mulher.

Como a Folha de S.Paulo mostrou em dezembro, a completa ausência de mulheres na Assembleia sul-mato-grossense, algo que não ocorria desde 1987, reflete o histórico de predominância masculina no poder local.

Em 40 anos (o estado é jovem, foi instalado em 1979), apenas 11 mulheres tomaram posse como deputada estadual -a maioria por ter ligações familiares e conjugais com líderes políticos.

Atualmente, as únicas mulheres que circulam no plenário são as funcionárias da área técnica que auxiliam as votações e as assessoras dos deputados.

Na legislatura anterior, três deputadas tinham mandato. Uma delas, Mara Caseiro (PSDB), tentou a reeleição, mas ficou na suplência e não assumiu um assento.

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