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Para ministro de Bolsonaro, servidores públicos viraram “parasitas”

Folhapress. Publicado em 7 de fevereiro de 2020 às 19:28.

José Cruz/Agência Brasil

José Cruz/Agência Brasil

NICOLA PAMPLONA
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Em defesa do projeto de emergência fiscal, o ministro da Economia, Paulo Guedes, comparou servidores públicos a parasitas, que estão matando o hospedeiro (o governo) ao receberem reajustes automáticos enquanto estados estão quebrados.

“O funcionalismo teve aumento de 50% acima da inflação, além de ter estabilidade na carreira e aposentadoria generosa”, afirmou. “O hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita”, afirmou, defendendo o fim dos reajustes automáticos.

Após a fala de Guedes, o ministério da Economia, em nota à imprensa, disse reconhecer a qualidade do servidor público brasileiro e que o ministro se referia a políticas antigas de reajustes sistemáticos.

O projeto de reforma administrativa está em análise no Congresso e abre a possibilidade de estados em crise adotarem medidas emergenciais, como a suspensão dos reajustes. Seriam elegíveis estados que ultrapassarem indicadores máximos de endividamento ou gastos obrigatórios.

“O governo está quebrado, gasta 90% da receita com salário e é obrigado a dar aumento”, argumentou o ministro.

Para defender a proposta, Guedes citou pesquisa Datafolha que diz que 88% dos brasileiros são à demissão de servidores por mau desempenho. “A população não quer mais isso”, afirmou, recebendo muitos aplausos.

Ele criticou também repasses obrigatórios aos Legislativos e Judiciários estaduais -conhecidos como duodécimos- e tempos de crise, alegando que enquanto os demais poderes mantém os salários em dia, governadores são obrigados a cortar serviços essenciais.

Em seu discurso, Guedes fez também afagos aos servidores federais, elogiando a competência da equipe que encontrou no Ministério da Economia.

As carreiras do serviço público serão discutidas também na proposta de reforma administrativa, que o presidente Jair Bolsonaro pretende enviar ao Congresso na próxima semana.

Para defender as mudanças, o governo tem argumentado que os custos do funcionalismo dispararam nos últimos anos, sem melhora correspondente na qualidade do serviço prestado. A ideia é reduzir a velocidade das promoções e a estabilidade do servidor.

A pedido de Bolsonaro, o projeto não vai mexer com os funcionários da ativa, mas apenas com os novos.

O Ministério da Economia, em nota, afirmou que a fala de Guedes foi tirada do contexto, e que as políticas antigas vem criando distorções, fazendo com que “recursos dos pagadores de impostos sejam usados para manter a máquina pública em vez de servir à população.”

Após a reforma administrativa, o governo pretende enviar ao Congresso a reforma tributária.

Deputados e senadores já trabalham nos projetos do pacto federativo e reequilíbrio financeiro de estados e municípios.

Ao falar da reforma administrativa, o ministro da Economia lamentou a possibilidade de perda de Mansueto que, segundo ele, estaria recebendo propostas para deixar o governo e assumir cargo na iniciativa privada ou em instituição multilateral.

O secretário foi citado como exemplo da velocidade com que são conferidas as promoções no serviço público. “Tem gente que entrou há cinco anos lá [no serviço público federal] e está ganhando só 15% a menos que o Mansueto, que tem 20 anos de experiência”, comentou o ministro.

Segundo Guedes, “tem muita gente correndo atrás dele”. “Eu acho até que vamos perder ele brevemente. A sereia [está] o tempo todo chamando”, afirmou.

Não foi a primeira vez em que Guedes demonstrou preocupação com a perda do secretário, que batiza o chamado Plano Mansueto, de reequilíbrio fiscal dos estados e revisão do pacto federativo.

Em dezembro, o ministro já havia dito que Almeida poderia “decolar”.

Guedes quer lhe dar o comando do Conselho Fiscal da República, órgão previsto na PEC do pacto federativo para acompanhar as contas dos estados e municípios. O conselho terá participação de Executivos, Legislativos e Judiciários nas três esferas de governo.

No evento, Guedes retomou a defesa do sistema de capitalização para a Previdência e voltou a falar na possibilidade de perda do secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, em discurso nesta sexta (7) no Rio.

O modelo de capitalização era parte de sua proposta original, mas acabou sendo derrubada pelo Congresso durante a tramitação da reforma em 2019.

O ministro argumentou que, para o país, é mais fácil garantir um retorno mínimo sobre o investimento do trabalhador ao longo da vida “do que prometer o que não pode cumprir”.

Ele propõe que o governo estabeleça um patamar mínimo de retorno -“inflação e mais alguma coisa”- para que empresas privadas ofereçam o serviço de capitalização.

Caso um desses prestadores não consiga obter o retorno mínimo, teria que colocar dinheiro próprio para cobrir a diferença. No terceiro ano seguido de rendimento menor do que o estipulado, seria descredenciado da Previdência.

“Vamos fazer capitalização com mínimo garantido. Dá uma oportunidade, dá um responsabilidade para o jovem”, disse ele, afirmando que o poupador poderia buscar alternativas no mercado para ter melhor rendimento.

Na aposentadoria, se os recursos acumulados forem insuficientes para garantir o mínimo, afirmou, o governo entraria com a diferença.

“Deu menos, o nosso subsídio é menor. É muito mais fácil ajudar alguém a ter a garantia do mínimo, quando levou recursos para o futuro, do que prometer algo que não se pode cumprir”, argumentou o ministro.

Ele defendeu ainda que esse modelo permitiria melhor alocação da poupança brasileira, ao invés de usar os recursos dos trabalhadores para empresar dinheiro subsidiado pelo BNDES.

Guedes fez críticas ao governo da França, afirmando que as acusações contra Bolsonaro a respeito de queimadas na Amazônia são motivadas por medo das exportações agrícolas brasileiras quando o acordo Mercosul União Europeia entrar em vigor.

A França se tomou o centro das preocupações da elite militar brasileira como principal fonte de ameaça estratégica para o país nos próximos 20 anos, segundo documento ao qual a Folha teve acesso.

A visão foi colhida pelo Ministério da Defesa com 500 entrevistados em 11 reuniões no segundo semestre de 2019 e incluída na minutoa “Cenários da Defesa 2040”.

Em 2019, o presidente francês Emanuel Macron levou o tema Amazônia ao G7, o grupo das sete maiores, abrindo uma crise diplomática com o governo Bolsonaro.

A briga culminou com ofensas do presidente brasileiro e do próprio Guedes à primeira-dama francesa Brigitte Macron. Primeiro, o Bolsonaro comentou “não humilha, cara kkkkk” em mensagem no Twitter que comparava Brigitte à sua esposa, Michelle.

Dias depois, ao comentar o caso em evento com executivos, Guedes disse que Brigitte “é feia mesmo”. Na mesma noite, ele divulgou nota se desculpando pelo que chamou de “brincadeira”.

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