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Bolsonaro sinaliza que novo partido não vai participar do pleito municipal

Folhapress. Publicado em 27 de janeiro de 2020 às 17:15.

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

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DANIEL CARVALHO, GUSTAVO URIBE E THAIS ARBEX
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – A nove meses das eleições municipais e cada vez mais convicto de que a Aliança pelo Brasil não sairá do papel a tempo de entrar na disputa, o presidente Jair Bolsonaro tem indicado uma guinada na estratégia que adotará na corrida deste ano.

As consequências negativas para uma eventual reeleição em 2022 levaram Bolsonaro a acatar -ao menos oficialmente -a orientação de auxiliares de não subir em palanques de candidatos a prefeitos.

“Se meu partido não tiver candidato, não vou me meter em política municipal no corrente ano, ponto final”, disse Bolsonaro na quarta-feira (15).

Em conversas reservadas na semana passada, Bolsonaro teria admitido em tom mais enfático que são remotas as chances de conseguir viabilizar a legenda a tempo de participar da disputa deste ano.

Para que a Aliança obtenha seu registro no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e possa entrar na corrida, é preciso reunir 492 mil assinaturas até o início de abril.

Embora os entusiastas da agremiação estejam propagando otimismo em relação à coleta de apoio, pessoas que acompanham de perto o processo de fundação admitem que a Aliança só nascerá em meados de junho ou julho.

Diante desse cenário, aliados de Bolsonaro dizem que o próprio presidente não estaria tão interessado em tirar a agremiação do papel tão rapidamente.

A avaliação que tem sido repetida é a de que, hoje, a presença de Bolsonaro em palanques pelo país traria mais prejuízo do que benefícios ao governo e à imagem do presidente.

De acordo com relatos feitos à reportagem, Bolsonaro tem demonstrado especial incômodo com o quadro eleitoral no Rio de Janeiro.

Embora tenha feito gestos ao deputado federal Otoni de Paula (PSC), o presidente admite dificuldade de não estar no palanque do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) -sobrinho de Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus.

A saia-justa, dizem pessoas próximas a Bolsonaro, seria a impossibilidade de dizer não ao pastor aliado e, consequentemente, defender uma gestão mal avaliada.

Hoje, o diagnóstico do grupo ligado ao presidente é o de que o desempenho de Crivella na capital fluminense pode beneficiar candidatos de esquerda, como Marcelo Freixo (PSOL).

Ter o carimbo de uma eventual derrota para um dos principais líderes da oposição ao governo não está nos planos de Bolsonaro, dizem aliados do presidente.

A reportagem apurou que tanto Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) como Onyx Lorenzoni (Casa Civil), responsáveis pela interlocução do Executivo com o Legislativo, sugeriram ao presidente que ele se mantenha isento na eleição deste ano.

Além de eventuais derrotas de candidatos alçados pelo bolsonarismo serem consideradas fracasso do presidente como cabo eleitoral, o próprio Bolsonaro já teria ponderado que qualquer deslize na administração de um prefeito apadrinhado por ele pode vir a ser debitada em sua conta na próxima eleição presidencial.

“Às vezes você elege um cara em uma capital aí, se o cara fizer besteira, você vai apanhar na campanha de 2022 todinha”, disse Bolsonaro em dezembro, quando recebeu jornalistas no Palácio do Alvorada.

Outro cenário que tem sido avaliado é o de que, ao abraçar o candidato de um partido que não seja da Aliança, Bolsonaro poderia entrar em rota de colisão com as demais siglas daquela disputa -o que prejudicaria ainda mais sua já conturbada relação com o Congresso, onde não tem uma base formal de apoio.

Nessa perspectiva, o caso mais emblemático, segundo dirigentes partidários e líderes políticos ouvidos pela reportagem, também seria o do Rio -berço político do clã Bolsonaro.

O apoio do presidente a outro candidato que não Eduardo Paes (DEM) o colocaria em lado oposto a Rodrigo Maia (DEM-RJ), que comandará a Câmara até janeiro de 2021.

“Duvido que ele vá se indispor com outras legendas em função de qualquer candidatura. Dos 53 deputados do PSL, ele não tem mais metade. Dos 4 senadores, tem o Flávio [Bolsonaro, seu filho], que, com todo desgaste que tem, é mais peso do que plataforma”, disse o líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP).

O temor no Executivo é que os adversários de candidatos do presidente travem a agenda do governo no Congresso como forma de retaliação, comprometendo as reformas administrativa e tributária.

A melhoria do ambiente econômico em consequência da aprovação desta agenda é tida como essencial para a tentativa de recondução do presidente.

Pessoas próximas a Bolsonaro no Planalto e na Aliança dizem, no entanto, que ele é intempestivo e pode não resistir à tentação de entrar em algumas campanhas.

No ano passado, antes de anunciar a intenção de criar uma nova legenda, Bolsonaro dizia que pretendia atuar como cabo eleitoral na campanha municipal em uma tentativa de manter a polarização que o levou à Presidência.

O objetivo era o de enfraquecer a esquerda e construir uma rede de apoio municipal que lhe desse condições de viabilizar a reeleição.

“Ele vai apoiar candidaturas alinhadas a ele, mas não necessariamente da sigla dele”, disse ao jornal Folha de S.Paulo, em julho de 2019, o porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros.

Em São Paulo, por exemplo, o chefe do Executivo já sinalizou apoio a nomes como o do apresentador José Luiz Datena (sem partido).

Segundo um interlocutor do presidente, no entanto, ele não está confiante de que o apresentador da Band sairá mesmo candidato, podendo repetir o recuo de 2018, quando desistiu de última hora da candidatura a senador.

Caso ele não leve a candidatura adiante, Bolsonaro vai trabalhar para Datena se filiar à Aliança e, eventualmente, sair candidato a senador em 2022, em uma chapa que teria o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, como nome ao governo paulista.

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