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Autora paraibana fala sobre dores e delícias de ser mulher negra

Ascom. Publicado em 22 de novembro de 2019 às 12:10.

Em seu livro de estreia, Waleska Barbosa, 43, autora paraibana radicada em Brasília há 19 anos, faz um convite já no título: Que o nosso olhar não se acostume às ausências

É uma proposta para que maiorias ou grupos fora dos padrões normativos, que terminam tomados como minorias, sejam enxergados em seu direito de existir e na sua diversidade. Com o mesmo tema, ela compôs uma música em parceria com o violonista Adriano Rocha, disponível no YouTube

O livro teve pré-lançamento no início de outubro, em Brasília, pouco antes da participação da autora na Feira de Livro de Frankfurt, onde fez parte da programação, a convite do projeto Sara e Sua Turma com o apoio institucional da Secretaria de Cultura do DF, da Fundação Cultural Palmares e Câmara Brasileira do Livro. 

Na Feira de Livro, ela falou no International Stage ao lado de escritores brasileiros sobre o tema A Literatura que vem da periferia. Em novembro, lançou a obra na Feira Literária de Campina Grande, sua cidade natal, onde também ministrou uma oficina de escrita. 

Fruto de edição independente, a obra foi viabilizada por uma campanha de pré-venda conduzida pela autora, que bancou a tiragem de 200 exemplares. As demais etapas foram presentes de amigos: o projeto gráfico é do Coletivo 105 e a ilustração da capa, do artista plástico Sérgio Abajur, paraibano que há onze anos mora na Alemanha, realizando trabalhos para o teatro.  

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Com 234 páginas, ‘Que o nosso olhar’ tem apresentação da escritora Leila de Souza Teixeira, a quem Waleska conheceu em São Paulo, em cursos de literatura promovidos pelo Sesc, e prefácio de Laura Castro, escritora baiana, editora de livros artesanais e professora universitária.

Nos 74 textos – crônicas e prosas poéticas – selecionados no acervo do blog  www.umpordiaw.com.br, ela (se) expõe sobre questões como violência, amor, desamor, maternidade solo, genocídio do povo negro, racismo, feminicídio. Expõe aspectos que permeiam a vida de mulheres da segunda idade, como se define, e questiona padrões e jugos. 

Como cronista nata, Waleska também capta momentos pueris, do dia a dia, com uma forma poética e muito peculiar de se colocar diante dos fatos, expressa pelo ritmo de sua escrita e pela maneira de pontuar as frases. Também consegue ser dura e contundente ao apontar o que chama de ‘involução’ do ser humano. 

Falando por si ou (re)contando histórias, ela descobriu que escrever era um caminho para o fim do silenciamento e da (auto)censura impostos a ela e, historicamente às mulheres, entre elas, às mulheres negras. A prática da escrita fez com que percebesse que sua forma de interagir com o mundo estava mudando e que conseguia, finalmente, falar com a boca, embora ainda precise de mais tempo para isso. 

O fio condutor da obra parte da identidade da autora como mulher negra, entendida e/ou reforçada, em função da escrita diária no blog. “O livro tem gênero. É feminino. É feminista. É mulher”, diz a orelha. 

INFÂNCIA

A necessidade de escrever vem da própria história. Filha caçula em uma família de 13 filhos, Waleska cresceu em meio aos livros. 

Nascida em 1976, foi educada em um tempo em que à criança não eram dadas muitas escolhas e falar nem sempre era uma prática bem-vinda. 

“Por outro lado, meu pai era um grande incentivador da cultura, da literatura e sempre me cobrava para ler e escrever pois defendia que um não podia existir sem o outro”, diz. 

“Eu lembro de ouvir muitas vezes que era para calar a boca. Meus irmãos (sete homens e quatro mulheres) também chegavam a responder a ideias minhas com adjetivos como “boba” ou “imbecil”. Hoje entendi isso dentro de um contexto histórico. Por outro lado, percebi que me deixou uma marca: silenciar. Fui levada a acreditar que minhas palavra e opinião não eram importantes, a engolir sapos, a não verbalizar e, se acontecesse, não fazê-lo em um tempo certo”.

Ela conta ainda que ter convivido na família com muitos adultos que se destacavam em suas áreas de estudo ou profissão também foi um problema. “Pensava não haver lugar para mim. Era como se fosse uma competição na qual eu não me sentia no direito de entrar. Então ia me fechando cada vez mais e, o pior, silenciando”, explica. 

LUTO

Alguns processos pessoais como os desafios impostos por ter uma filha de pele clara, a morte do irmão, em 2014, a separação do companheiro, em 2015, e a vontade de descobrir o ‘tal propósito de vida’, a levaram a se debruçar-se sobre si. 

“Psicoterapia, psicanálise, livros de autoajuda, leituras de tarô, constelação familiar, conversas com as amigas, muitas fontes de autoconhecimento me fizeram entender que a história era minha. Que eu teria que protagonizá-la independente de outras pessoas terem feito isso. Não havia competição. Nem a figura do outro. Era pessoal”, conta. 

De acordo com ela, por mais que as coisas estivessem correndo bem, havia um desconforto. Uma lacuna na alma. “Eu queria fazer algo além de trabalhar com comunicação social, já que sou jornalista de formação, mas não me sentia apta, não sabia o quê. Só pedia aos guias espirituais que não me deixassem morrer sem a resposta e sem conhecer o tal brilho nos olhos de quem se realiza, ama o que faz e beneficia outras pessoas com isso”, confessa.  

Em 2017, de volta a Brasília depois de uma temporada de onze meses na Paraíba, ela criou o blog com a ajuda de um amigo, espaço na Internet onde escreveria diariamente. “Era como se fosse para compensar o tempo perdido”, diz. 

Mas serviu também para aperfeiçoar sua escrita, entender seu estilo, testar formatos, errar, assumir os erros, se expor, ir fundo em questões que doíam. “Alguns textos me fizeram chorar, me causaram reações inesperadas e me exigiram longas pausas para tentar arrumar coisas internas”. 

TORNAR-SE NEGRA

Waleska diz que só enxergou a cor da sua pele quando veio morar em Brasília e passar a deparar com casos de racismo pelos quais passa diariamente. “Eu sou filha de um casal interracial, Manoel e Maria, de destaque na sociedade por suas atividades profissionais, mas que não tinha dinheiro como os outros que estavam lá. 

Ela conta que estudou em escolas particulares, fez cursos de línguas. “Mas no resto, nosso padrão não acompanhava o dos colegas e eu terminava sendo a famosa “única negra” nos lugares que frequentava. Meus irmãos todos passaram por isso, muitas vezes sem perceber”. 

Escrever no blog também reforçou o seu engajamento em causas políticas e sociais. Foi quando conheceu movimentos literários como o Leia Mulheres e o Mulherio das Letras e políticos, como a Frente de Mulheres Negras do DF.

LEIA MULHERES NEGRAS

Resolveu intensificar a leitura – de mulheres, de mulheres negras e de livros que abordam a história do Brasil tendo como ponto de partida a escravização de africanos. “Acompanhar livros e entrevistas de mulheres negras como Conceição Evaristo e Djamila Ribeiro seu falar pulsante, suas reflexões, também me ajuda muito. Vou crescendo. Aprendendo. Ampliando horizontes. Ajustando formas de pensar e de entender as coisas”, conta. E há muitas outras que admira e lê, como Cristiane Sobral, Cidinha da Silva e autoras de países da África. 

Com esse caldeirão fervilhando e ganhando mais ingredientes, Waleska já é convidada para saraus e eventos literários. E quer se dedicar a ministrar cursos, palestras e oficinas, convidando mulheres, em especial as negras, a escrever.

“Para conseguir falar com a boca também, verbalizar, gritar e, ao fim, curar – dores ou máculas – muitas vezes históricas e ancestrais, como os efeitos da escravização, do machismo, do patriarcado e tantos padrões e comportamentos impostos às mulheres. Ao tirar nossas questões de um espaço subjetivo e colocá-las no papel, é como se as nomeássemos. Isso vai criando uma revolução interna. Uma autoterapia silenciosa com muita potência para nos transformar. É o que acontece comigo”, acredita. 

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