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Ala da Igreja Católica aponta comunismo no Sínodo da Amazônia

Da Redação. Publicado em 12 de outubro de 2019 às 10:39.

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Comum no guarda-roupa do papa e de seu bispado, o vermelho tem várias simbologias, como a de representar o sangue do martírio de Jesus. Para alas direitistas da igreja, serviria também de dica para a infiltração comunista no Vaticano, e o Sínodo da Amazônia nada mais seria do que uma peça desse quebra-cabeça marxista.

O encontro sobre a região amazônica, que começou no último domingo (6), teria como meta espalhar a “utopia comunotribalista pela qual uma minoria de antropólogos neomarxistas pretende manter nossos irmãos indígenas no subdesenvolvimento, confinando-os num gueto étnico-cultural, verdadeiros ‘zoológicos humanos'”.

Esse trecho consta de abaixo-assinado proposto pelo IPCO (Instituto Plínio Corrêa de Oliveira), que traz no nome o fundador da ultraconservadora organização católica Tradição, Família e Propriedade.

O texto deu a tônica de uma conferência que reuniu cerca de 200 pessoas no hotel Quirinale, em Roma, no fim de semana de estreia do sínodo.
Falavam ali vozes que por anos habitaram as franjas do catolicismo brasileiro e agora ganham projeção em boa parte por causa da simpatia que lhes tem a família Bolsonaro.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), por exemplo, participou em maio de evento promovido pelo IPCO, conhecido pelas intervenções de seu grupo jovem, que levava sua fanfarra às ruas para combater a descriminalização do aborto e causas progressistas.

Foto: Ascom

Foto: Ascom

Pois a causa agora é lutar contra o que percebem como “esquerdização” da Igreja Católica. Para tanto, contaram com palestras de Bernardo Küster, youtuber católico, Bertrand de Orleans e Bragança, herdeiro da família real brasileira e autor de “Psicose Ambientalista”, e Jonas Marcolino, da etnia macuxi, porta-voz dos indígenas de direita.

Também palestrou o meteorologista e professor da Universidade Federal de Alagoas Luiz Carlos Molion. Coqueluche dos negacionistas da crise climática, ele sustentou em Roma que “tudo o que se diz sobre a Amazônia é balela”.

Assim relatou à reportagem o chileno José Antonio Ureta, líder da “pró-vida e pró-família” Fundación Romana e articulista do IPCO. Para ele, a conferência se prestou a “balançar um pouco reportagens excessivamente parciais, mostrando que há vozes dissonantes”, na igreja, sobre a serventia do evento convocado pelo papa.

“Cantávamos fora do coro, e quem canta fora do tom parece estridente.” Ureta reproduz uma ideia recorrente entre grupos conservadores, católicos ou não: a mídia seria massivamente de esquerda e acobertaria as reais intenções do encontro do bispado.

Daí a necessidade de nadar contra a corrente, o que Bertrand fez ao dizer que “o caráter muito doce e afetuoso do brasileiro vinha da caridade cristã”, afirma Ureta.

O chileno mesmo deu seus pitacos, ao defender que a Teologia da Libertação, movimento que clama por mudança social, “pregava o ódio das raças, colocava indígenas contra brancos e fazendeiros”.

Um artigo no site do IPCO resume a crítica contra o sínodo: seu objetivo seria “pregar a fossilização dos índios em seus costumes tribais” e “ir contra o mandato de Nosso Senhor: ‘Ide, e evangelizai todos os povos'”. Isso acontecerá, segundo o texto, caso a igreja ceda a “ritos pagãos” para se aproximar dos indígenas.

O sinal vermelho acendeu com a fala de abertura do papa Francisco no sínodo: ele disse que a ação pastoral deve se esquivar de “colonizações ideológicas” e lembrou que, em sua Argentina natal, “um lema ‘civilização e barbárie’ serviu para dividir, aniquilar”.

Se Francisco é visto com ressalvas, o que dizer de dom Cláudio Hummes, brasileiro que preside a Rede Eclesial Pan-Amazônica, é próximo do pontífice e amigo do ex-presidente Lula? Bernardo Küster o tem na mira há tempos.

“Não se trata de tomar partido”, ele diz. “Mas de trabalhar para que não haja excessos, distorções e perversões da fé católica de 2.000 anos.”

Possibilidades aventadas para responder à escassez de padres na Amazônia são vistas com descrença por Küster. Ele questiona: que papo é esse de deixar mulheres serem diaconisas ou ordenar clérigos casados? Seria “colocar remendo velho em pano novo: o rasgo fica maior”, diz. “E o papa já se mostrou indisposto em várias ocasiões a não abrir essa exceção para a região.”

Embora o Vaticano dê sinais de que essas cartas estão na mesa, Francisco já declarou que a proibição de mulheres se tornarem padres (passo além da função do diácono) é irremovível, por exemplo.

Para Küster, o sínodo não pode deturpar o papel que ele atribui à igreja: “Ela está aqui, em primeiro lugar, para evangelizar. Perdendo isso, vira ONG de assistência social.”

Nas redes sociais, o influenciador católico usou uma frase associada a um santo do século 4º para responder aos que “acham que pego pesado com padres, bispos e religiosos”.

Aconselhou: “Leiam só São João Crisóstomo: ‘O caminho para o inferno está pavimentado com ossos de padres e monges, e os crânios dos bispos são postes que iluminam o caminho’.”

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