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Lamento os cortes e a tentativa de censura, afirma atriz

Folhapress. Publicado em 18 de setembro de 2019 às 17:46.

Foto: Reprodução

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MARIANA AGUNZI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Para morrer, basta estar vivo”. É assim que a personagem de Irene Ravache reforça aos espectadores sua condição de morta no monólogo “Alma Despejada”, que entra em cartaz nesta quarta-feira (18) em São Paulo.

“Quando li o roteiro, fiquei pensando: como será que as pessoas vão reagir ao fato de ela não estar viva?”, diz a atriz ao Pitaco.

Mas não há, de fato, nenhuma grande questão com o lado mórbido da peça. É justamente por interpretar uma personagem morta -isso não é um spoiler-, que Irene ganha o distanciamento necessário para fazer reflexões sobre vida, política e envelhecimento com maestria.

O texto foi escrito por Andréa Bassitt (de “As Turca” e do infantil “Operilda na Orquestra Amazônica”) especialmente para Irene Ravache, e tem direção de Elias Andreato.

“Tenho umas dez peças que comecei a escrever para a Irene, mas nada ia para frente. Então comecei o monólogo e fui achando um caminho”, conta Andréa.

Com ótimo jogo de palavras, “Alma Despejada” fala de questões comuns. Teresa, uma senhora de cerca de 70 anos, faz sua última visita à casa que morava com o marido e os dois filhos antes de morrer (o imóvel foi vendido e será ocupado por um jovem casal), e reflete sobre a vida feliz e imperfeita que teve por lá.

O monólogo retém o espectador do início ao fim por ser carregado de poesia, mas ao mesmo tempo ter um humor leve que abranda temas mais complexos.

Quando a personagem versa sobre questões políticas que envolveram o marido, não se preocupa em tomar partido. Fica no espectador a dúvida: ela sabia ou não dos crimes que ele cometia?

“No início da carreira eu fazia um teatro muito politizado, em cima de caminhão, com a polícia atrás. Eu queria voltar a falar de política, mas de outra forma. Depois que me tornei produtora, meus espetáculos são mais investigativos da alma humana”, explica a veterana.

Por esse cuidado com o texto, pela sutileza do cenário e, é claro, pela atuação de Irene Ravache -no auge de seus 75 anos de idade e 56 de carreira-, o pitaco deste blog é de que vale a pena assistir ao espetáculo. Mesmo quem não está acostumado com monólogos vai se surpreender e aplaudir de pé.

CULTURA, CORTES E CENSURA
Mudanças na Lei Rouanet impactaram também a estreia do monólogo, que demorou mais tempo para sair do papel, conta a autora Andréa Bassitt.

Além disso, no dia da conversa do Pitaco com Irene Ravache e a produção da peça, a Folha de S.Paulo noticiou novos cortes do governo à cultura -desta vez, atingindo a Ancine (Agência Nacional do Cinema).

Um projeto de lei apresentado ao Poder Legislativo prevê, em 2020, redução de quase 43% do orçamento do Fundo Setorial do Audiovisual. É a menor valor para o fundo desde 2012, quando ele recebeu R$ 112,36 milhões.

“Não sinto a democracia ameaçada, mas lamento os cortes, as atitudes, a tentativa de censura”, diz Irene quando questionada sobre o assunto.

“Creio que isso acontece porque as pessoas não gostam de cultura. Conheço alguns políticos, e poucos vi indo ao teatro. Imagino que as pessoas que estão em cargos como secretário e ministro [na pasta da Cultura] talvez quisessem estar em outros lugares. Eles não estão apaixonados por aquilo.”

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