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Projeto utiliza música para resgatar memórias de idosos atendidos pelo HU de JP

Ascom. Publicado em 1 de julho de 2019 às 17:07.

 

Foto: Ascom

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“Lembro muito que minha mãe enfrentou os cangaceiros. Todo mundo fugiu com medo, mas ela não”. Aos 86 anos, dona Anatália Carneiro tem problemas de memória, mas bastou uma sessão musical para ela relembrar histórias e momentos de sua juventude.

A terapia por meio de canções faz parte do projeto de extensão “Musicalmente”, desenvolvido pelo setor de Geriatria do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW-UFPB), da Universidade Federal da Paraíba e vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh).

E o melhor: cada atividade com música é individual, com base no repertório e na vida de cada paciente.

A cantoria que avivou a mente da paciente, acompanhada no início apenas com um menear de cabeça ou leves batidas com os pés, logo ganhou corpo.

Melhor dizendo, todo o corpo: e fez dona Anatália dançar ao som de canções de gigantes da música brasileira, como Sivuca, e sua memorável Feira de Mangaio, e Luiz Gonzaga, com o Xote das Meninas, que pôs a idosa de pé.

Tudo isso executado no auditório do Hospital Universitário por um grupo musical que também integra o projeto.

Assim, trombone, triângulo, flauta e outros instrumentos musicais contribuíram para trazer à tona lembranças da infância e alegrias, que estavam escondidas em algum lugar do cérebro devido a uma síndrome demencial.

Foto: Ascom

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“Ave Maria, achei tudo maravilhoso aqui. Nunca pensei que na velhice viveria isso tudo de novo. Me alegrei muito. Lembrei muito de minha terra (São Gabriel, interior da Bahia). Lembrei de quando meu pai fazia essas brincadeiras todas. Era uma festa! Tinha pamonha, milho assado, era uma alegria. Juntava tanta gente dentro de casa”, comentou dona Anatália, rindo.

A satisfação com o projeto também se vê na filha de dona Anatália, Creusa Carneiro.

A família tem origem na Bahia, mas mora em João Pessoa, a capital paraibana, desde a década de 1980. Faz uns dois anos que a mãe é atendida no setor de Geriatria do HULW e há pouco tempo começou a fazer parte do projeto.

“Desde que começou o tratamento, minha mãe está muito mais tranquila, recuperando a memória e mais alegre. Ela se vira, faz as coisas dela sozinha”, diz.

“Eu fiquei encantada com esse projeto. Sinceramente, eu acho que através da música é muito mais fácil você trabalhar certas dificuldades do idoso, as lembranças, as memórias, até a questão da autoestima. Eu achei muito interessante, principalmente porque o projeto partiu do curso de Medicina, que geralmente eu acho mais fechado para as outras áreas. Eu achei lindíssimo. Com todo mundo que eu falo, fica admirado com esse projeto”, comentou Creusa Carneiro.

SÍNDROMES DEMENCIAIS

O projeto de extensão “Musicalmente” tem como objetivo trabalhar a música autobiográfica como terapia alternativa dos sintomas neuro-comportamentais nas síndromes demenciais.

O público-alvo são pacientes do Ambulatório de Memória do HULW e pacientes com diagnóstico de demência hospitalizados na instituição. As atividades são coordenadas pela geriatra Manuella de Sousa Toledo.

Para desenvolver o trabalho, buscou-se como inspiração os projetos “Música para Despertar”, na Espanha, e Music and Memory, nos Estados Unidos.

As síndromes demenciais são muito comuns e o envelhecimento é um fator de risco sabido, explica a geriatra Manuella Toledo.

“Temos mais de 250 demências no mundo, sendo 60% Alzheimer. É importante investigar todo esquecimento, pois não é normal de idade nenhuma esquecer. Então, é importante investigar e diagnosticar”, afirmou.

A importância do projeto “Musicalmente”, reforça a especialista, é a música autobiográfica como resgate da memória, como um fortalecimento da memória recente e resgate da memória antiga.

“Isso porque cada memória tem um registro e normalmente tem um vínculo musical. Lembrando também que nossa vida é muito musical. Outro ponto a destacar é a importância do projeto para a interação social com os cuidadores e também para a localização temporal e espacial, associando a música com períodos do ano”, destaca.

EFEITOS ESPERADOS

“A música autobiográfica é uma música que tem um significado especial na vida de cada paciente. Então a gente busca conhecer melhor o paciente, montar um repertório individualizado, personalizado, para que tenha os efeitos desejados. A gente espera efeitos no comportamento, no humor e também em sintomas depressivos ou ansiosos, além de reduzir a apatia e melhorar a relação entre o paciente e o próprio cuidador”, comenta Nathalia Cristina Immisch, interna de Medicina no HULW.

Ao vivenciar a música autobiográfica, o indivíduo trabalha a evocação de memórias e emoções, ativando o sistema límbico e hipocampo, além das outras áreas cerebrais estimuladas puramente por qualquer música.

“A gente também espera que algumas memórias sejam reativadas, pois geralmente o paciente associa momentos da vida a algumas músicas, ao lugar onde ele viveu, nasceu, aos parentes, pais, juventude. Então, isso tudo a gente explora”, complementou Nathália Immisch.

Iniciado em março de 2019, o projeto envolve entrevistas com os familiares para que haja a construção do perfil de preferências musicais de cada paciente, além de sessões individuais com objetivo de proporcionar uma experiência mais imersiva na música e eliminar possíveis distrações.

Nos primeiros meses, os estudantes extensionistas foram treinados para que pudessem atender melhor o paciente idoso e só depois começaram as sessões.

O projeto envolve estudantes de Medicina, Terapia Ocupacional, Fisioterapia, Música e Psicologia.

Após cada sessão, registrada em vídeo pelos estudantes, o paciente é examinado e questionado sobre as memórias afloradas e emoções vivenciadas.

Além das sessões individuais, o projeto também se propõe a realizar visitas aos pacientes hospitalizados em estado geral de bom a regular, de modo a tornar o ambiente mais humanizado, aliviando a tensão de uma internação hospitalar.

A expectativa é que haja uma redução nos sintomas neuro-comportamentais bem como uma melhor perspectiva em termos de qualidade de vida para os pacientes e seus cuidadores, visto que as síndromes demenciais afetam também intensamente a vida das pessoas envolvidas com os enfermos.

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