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Jornalista vê ‘factoide’ em ação para derrubar vice-presidente Mourão

Folhapress. Publicado em 22 de abril de 2019 às 15:19.

 

Foto: Reprodução/Redes Sociais

JOELMIR TAVARES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Por causa de uma mensagem no Twitter elogiosa ao vice-presidente da República, a jornalista Rachel Sheherazade, apresentadora de telejornal no SBT, se viu envolvida em um processo que pede o impeachment do general Hamilton Mourão (PRTB).

Ela não gostou nada de ir parar na petição apresentada pelo deputado federal Marco Feliciano (Podemos-SP) na quarta-feira (16) com o objetivo de tentar derrubar o vice de Jair Bolsonaro (PSL).

“Esse pedido de impeachment não tem respaldo político nem legal. Não passa de mais um factoide para agitar militância, criando uma falaciosa conspiração do vice”, disse ela à reportagem.

A história começou no último dia 8, quando Sheherazade foi ao Twitter dar parabéns a Mourão “pela lucidez” em uma palestra na Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

“Finalmente um representante do governo não nos causa vergonha alheia. Muito pelo contrário: o vice mostrou como ele e o presidente são diferentes: um é o vinho, o outro vinagre”, escreveu na rede social.

Quatro dias depois, a jornalista compartilhou com seu 1,5 milhão de seguidores o que chamou de “a glória”: o perfil de Mourão havia “curtido” a mensagem.

Para Feliciano, proeminente nome da bancada evangélica, a reação positiva ao tuíte de Sheherazade é uma das provas de que o vice está conspirando para tomar o lugar de Bolsonaro.

“O deputado parece desconhecer a Constituição e as leis do país”, rebate a apresentadora, para quem o botão de coraçãozinho marcado por Mourão na postagem nem de longe seria suficiente para justificar um pedido de impeachment.

O documento protocolado na Câmara dos Deputados afirma que o vice “de forma desavergonhada chancelou”, nesse caso, “uma crítica severa” feita a Bolsonaro.

“Curtida em tuíte é um nada jurídico”, prossegue a apresentadora do SBT. “A vigília ostensiva desse tipo de interação por parte do deputado [Feliciano] nos fala mais sobre a prática do parlamentar do que sobre o caráter do vice-presidente. Enquanto um trabalha incessantemente em prol do governo e do país, o outro negligencia suas obrigações parlamentares para se tornar um fiscal de curtidas. Não pagamos o salário do senhor Feliciano para ser vigia de redes sociais.”

Ela acrescenta que, “como apoiador do governo, Feliciano deveria estar atuando na articulação política” para a aprovação da reforma da Previdência defendida por Bolsonaro. “Não cabe a ele gerar desconfiança, dissidências e ódios dentro do núcleo do governo.”

No pedido de impeachment, Feliciano apresenta outras evidências de que Mourão age com deslealdade perante o presidente, como “críticas e contraditas” feitas em público que colidem com posicionamentos do titular do Planalto.

Outrora admirada por conservadores e militantes de direita, a funcionária do SBT (que chegou à emissora em 2011 convidada pelo dono do canal, Silvio Santos) caiu em desgraça nas redes bolsonaristas e passou a ser vista como opositora do agora presidente.

Em janeiro de 2018, quando a candidatura do capitão reformado começava a ganhar força, Sheherazade falou ao jornal Folha de S.Paulo que, embora se considerasse uma liberal conservadora, não apoiava o então deputado nem tinha “empatia política” por ele.

Agora, com o governo indo para o quinto mês, a apresentadora diz seguir com postura distanciada e crítica. E desconversa quando indagada se Mourão seria um presidente melhor que o atual. “Bolsonaro tem cometido erros estratégicos para aprovar sua pauta. O eleito foi o capitão, e não o general. Não me cabe especular sobre um futuro imprevisível.”

Ela afirma também que “de forma alguma” tem percebido gestos ou afirmações de Mourão que indiquem intenção dele de assumir a Presidência.

“A questão é que o vice destoa profundamente do presidente, seja por sua temperança, seja por seu preparo técnico, seu intelecto superior e sua articulação política eficiente. Esses atributos, típicos de um estadista, obviamente acabam sobressaindo e ofuscando o atual presidente, o que gera ciúmes, insegurança e desconfiança.”

A jornalista lembra que, apesar de ter aplaudido o vice-presidente pela fala em Harvard, discordou dele em outros momentos.

“Elogio práticas, não pessoas. Simpatizo com o general, por se mostrar um homem culto e aberto ao diálogo, com uma postura mais ponderada que se revelou após a eleição da chapa. Mas já o critiquei também.”

Ela repudiou o que classifica como “aquela declaração desastrosa” durante a campanha eleitoral, quando Mourão afirmou que lares pobres só com mãe e avó são “fábricas de desajustados”.

Manifestou-se contra o militar também por causa da ideia dele de que “uma Constituição não precisa ser feita por eleitos pelo povo”.

“Portanto não tenho uma postura paternalista com relação ao vice”, diz Sheherazade. “Como qualquer jornalista de opinião independente, critico quando necessário e elogio se houver merecimento.”

METÁFORAS
Instado por repórteres na quinta-feira (18) a falar sobre o pedido de afastamento, Mourão reagiu com tranquilidade. “Isso aí é bobagem. Se prosperar, eu volto para a praia.”

Feliciano, em entrevista à coluna Mônica Bergamo, sugeriu que a petição é mais uma marola para dar um susto no vice do que uma onda realmente capaz de tirá-lo de cena. “Não é um tiro para matar. É um tiro para o alto”, comparou o deputado.

Ainda no campo das metáforas, a que foi usada por Sheherazade para ressaltar as diferenças entre Mourão e Bolsonaro (“um é o vinho, o outro vinagre”) foi retomada pela deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) ao comentar o pedido de Feliciano.

Janaina, que foi uma das autoras da ação pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), minimizou o imbróglio. A advogada pertence ao mesmo partido de Bolsonaro e esteve perto de ser vice dele.

No Twitter, ela escreveu que divergências entre presidente e vice “são saudáveis, permitem à dupla melhor representar a diversidade que é o Brasil”.

“Segundo o deputado [Feliciano], a jornalista teria comparado Bolsonaro a vinagre e Mourão a vinho. Justiça seja feita, o vinagre não é de todo ruim”, opinou Janaina.

“O deputado haveria de pensar nos pratos maravilhosos que podem ser feitos com um bom vinagre balsâmico. Não sou especialista, mas penso que vinagre balsâmico até combina com vinho branco.”

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