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Chapéus, arranjos, instrumentos e fotografias reconstroem Pixinguinha

Folhapress. Publicado em 22 de abril de 2019 às 16:52.

 

Foto: Reprodução/Folhapress

Foto: Reprodução/Folhapress

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Tem muita coisa que não se sabe ao certo sobre Pixinguinha. O dia em que ele nasceu, por exemplo.

Há quem diga 4 de maio, há quem diga que foi há exatos 122 anos, num 23 de abril, dia de São Jorge. É também o Dia Nacional do Choro, data que tudo tem a ver com este outro tipo de guerreiro, que fazia do saxofone a sua espada.

Biógrafos e historiadores não conseguem sequer chegar a um consenso sobre por que Alfredo da Rocha Vianna Filho ganhou o apelido pelo qual a história o consagrou.

Uns falam que veio de pizindim, que significaria “pequeno bom” no dialeto de uma avó africana. Outros, que veio da bexiga, nome popular para a varíola, doença que contraiu ainda moleque. Quem sabe a fusão dos dois?

Mesmo o porquê de o choro, gênero que o tem como pai, se chamar assim é alvo de disputa. Poderia ser uma corruptela de charamela, um instrumento de sopro, ou vir de chorumela mesmo, do jeito choroso de tocar. Ou ainda: um derivado de xolo, um baile de escravos.

Mais inconteste é reconhecer o papel de Pixinguinha na construção do que entendemos hoje por música popular brasileira. É como já desafiou um dos maiores craques no assunto, o historiador Ary Vasconcelos (1926-2003): boa sorte tentando contar a história do cancioneiro nacional em 15 volumes. Não dá. Muito pouco.

“Mas, se você dispõe do espaço de apenas uma palavra, nem tudo está perdido. Escreva depressa: Pixinguinha.”

Um único nome que, em 62 anos de carreira, agregou tantos elogios superlativos, como esta frase, que abre um texto sobre sua vida publicado no site do IMS (Instituto Moreira Salles).

Outro desafio é evocar o compositor de “Carinhoso” sem falar de vanguarda musical e racismo à brasileira. Pontos dessa trajetória que se enrosca com a do Brasil musical do século 20 estão em “Pixinguinha – Naquele Tempo, Hoje e Sempre”, exposição que o IMS do Rio inaugura nesta terça (23).

Chapéus garbosos e gravatas-borboletas que usava estão entre os itens selecionados para a mostra, que deixou de fora outros tantos, como uma carteira de maçonaria que em algum ponto da vida Pixinguinha adquiriu.

Não quer dizer que ele fosse maçom, até porque ele acumulava várias carteiras das mais diferentes espécies, explica Bia Paes Leme, coordenadora musical do IMS (que comprou dos herdeiros o acervo do músico).

O curador da exposição, Luiz Fernando Vianna, chama a atenção para dois outros itens: um contrato de 1929 com a Victor Talking Machine, que lhe garantia por mês “um conto tresentos cincoenta mil réis” e fora achado no lixo antes de ir parar nas mãos do historiador José Ramos Tinhorão. “Pixinguinha foi o primeiro arranjador brasileiro contratado por uma gravadora internacional”, diz Vianna.

Tem também a flauta original que ele comprou em 1939, após o furto de outra. Usou-a por um ano só, porque logo adotou o sax.

O novo instrumento era mais fácil de tocar, e isso veio a calhar para Pixinguinha, que lidava na época com problemas de dentição e alcoolismo. “Nem todos os músicos ganhavam muito bem. Ele esteve muito na merda”, afirma o curador.

O pagamento de direitos autorais patinava, o que não chegava a tirar o sono do músico. Como já disse o jornalista Sérgio Cabral (pai do ex-governador fluminense), de “Pixinguinha, Vida e Obra” (1977): “A felicidade era para ele fazer música e um pouco de bebida”.

Pixinguinha se familiarizou com o sax quando, em 1922, tocou por seis meses em Paris, na boate Shéhérazade. Isso como parte dos Oito Batutas (“Les Batutas”), que trazia também o amigo Donga, conhecido como autor do primeiro samba gravado no Brasil, “Por Telefone” (composição a várias mãos, na verdade).

A excursão teve patrocínio de Arnaldo Guinle, irmão do fundador do Copacabana Palace. Reza a lenda que um dos choros de Pixinguinha, “Lamento”, se relaciona com o hotel (embora a letra verse sobre as lamúrias do homem abandonado por uma morena).

Os batutas voltaram de Paris -no mesmo navio que Santos Dumont, aliás- e ganharam uma festa lá. Um porteiro acabou barrando a entrada do grupo: negros como eles, só pela porta dos fundos. O gerente soube depois, quis demitir o funcionário, mas Pixinguinha foi a seu socorro. Teria apenas dito: “Lamento que pense assim sobre os negros. Só lamento”.

Se Donga era mais brigão, Pixinguinha fazia o tipo conciliador. Uma característica essencial daquele que, nos anos 1930, “juntou coisas muito diferentes”, como elenca o arranjador e musicólogo Paulo Aragão: os choros, as notas que vinham dos morros, os europeus que tocavam violino, as bandas militares de sopro.

E dono de um senso de humor que só ele, diz Aragão. Algumas músicas têm “uma coisa meio cinematográfica, lembra desenho animado”. Exemplo: “Gato e Canário”. “Parece ‘Tom e Jerry’.”

Já que a gente começou este texto falando das incertezas, é bom dizer que nem especialistas como ele conseguem precisar quantas músicas Pixinguinha compôs. A lista atual contempla cerca de 340, mais 60 que pode ser que sejam dele, pode ser que não.

Há ainda músicas equivocadamente atribuídas a ele, caso de “Dengo-Dengo”.

Isso porque era comum, por exemplo, que se chegasse numa casa, fizesse uma música para seu dono e a deixasse lá. Chorões copiavam, partituras circulavam, e a autoria se confundia.

Atrás de inéditas do músico, a equipe do IMS topou com 48 composições, como “Noite de Martírio”.

Pixinguinha morreu em 1973, aos 75, na Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, antes de batizar um afilhado.
Perto dali, a carnavalesca Banda de Ipanema se preparava para desfilar. Avisados do infarto, os foliões saíram em cortejo até a igreja.

Na porta, em coro, entoaram a letra que Braguinha fez para a mais famosa melodia de Pixinguinha. “Meu coração/ Não sei por quê/ Bate feliz/ Quando te vê…”

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