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Psicóloga comenta a importância do debate sobre o adoecimento mental

Da Redação. Publicado em 15 de março de 2019 às 13:46.

Foto: Ilustrativa

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“Uma coisa que não vem sendo feita é o cuidar da infância. Hoje em dia, os transtornos e adoecimentos emocionais e mentais têm início dos 10 a 14 anos e, a maioria, não são tratados porque não são entendidos, não são percebidos. Nossa sociedade está doente e prefere ridicularizar essa doença, dizendo que esses jovens são mimados, que eles têm tudo, que não têm atenção, que os pais não mudam. Dizem muita coisa e tratam muito pouco”.

A fala é da psicóloga Ana Karine Gonçalves, ao comentar o recente caso de estupro de menores em um colégio particular de João Pessoa, e o caso do tiroteio na escola Raul Brasil na cidade de Suzano, interior de São Paulo, onde dois jovens mataram sete pessoas e depois cometeram suicídio.

Em entrevista à Rádio Correio FM, nesta sexta-feira, 15, Ana Karine, ao explanar sobre o caso ocorrido em João Pessoa, em que houve o estupro de menores praticado por outros menores, é importante avaliar alguns traços e saber se esses adolescentes infratores já passaram por alguma situação de abuso.

Segundo ela, uma realidade presente nas periferias, bem como na região Nordeste, por exemplo, é de que alguns jogos sexuais entre meninos são entendidos como “brincadeira de homem”, mas que, na verdade, são abusos.

– Esse caso em questão foi praticado em uma escola particular de grande porte e os pais procuraram a Justiça. Mas, na periferia, quem trabalha em CRAS e CREAS escuta muito relato desse tipo, de que “foi molecagem”. Geralmente, os pais afastam essas crianças de lá e elas não têm o devido tratamento, nem para o menor abusado e nem para o menor abusador. A questão do abuso sexual hoje em dia já é entendida como algo que pode ser tratado. Não tratado quimicamente, mas psicologicamente – elucidou.

Ana defendeu que é necessário que seja feita a educação sexual correta dentro das escolas, bem como no diálogo feito em casa com a própria família, pois esta é a melhor forma de prevenir abusos e, consequentemente, a manutenção desses abusos.

– A orientação sexual feita corretamente é a melhor forma de prevenir o abuso e, sobretudo, a manutenção do abuso. Quando você tem um diálogo com o seu filho sobre sexualidade e coisas que incomodam nas regiões sexuais, a criança não vai manter-se escondida em uma situação de abuso. Agora, se você diz que “isso não pode”, “isso é feio”, “isso é errado” a criança não vai assumir que foi ou é abusada, porque ela se sente culpada. Essa atitude protege o abusador, porque o abusador sabe “jogar” psicologicamente com a vítima. Ele sabe fazer pressão e sabe o que assusta essa vítima. E aí os índices de abusos contra crianças e adolescentes são altíssimos e os transtornos seguintes também, porque, em grande maioria, os transtornos não são tratados – referendou.

Na opinião da psicóloga, a sociedade atual está adoecida e que a falta de inteligência emocional que, segundo ela, é conseguir significar o sentimento, é inexistente.

– Nós, na nossa sociedade, fazemos uma educação de negar o sentimento. O adulto já desaprendeu a sentir profundamente, ou a expressar o que sente, e ele tem um grande estranhamento à sensibilidade da criança e, assim, acabamos por mutilar o sentimento dessa criança -.

Ana também destacou que a criança só aprende o que ela vivencia no dia a dia.  Se a criança não interage e não está socializando, e nem vivendo situações que a coloquem no limite e a fazem aprender sobre as situações, sejam boas ou ruins, a psicóloga frisou que, provavelmente, ela não vai ter habilidade social nem na adolescência e nem na vida adulta.

No caso da escola em Suzano, Ana Karine pontuou o processo de adoecimento psicológico grave em adolescentes e jovens com idades de 15 a 19 anos, que, segundo estudos, é a terceira maior causa de morte no Brasil nessa faixa etária,  através do suicídio.

O suicídio, na faixa etária em questão, só perde para acidentes e homicídios.

– O comportamento suicida tem o afastamento e o isolamento social. Um jovem que já tem o adoecimento, que pode ser depressão, que pode ser outro transtorno de cunho social, e que acaba atingindo o psicológico e o emocional, começa a se isolar e começa a exercer a sua agressividade principalmente nos jogos. No entanto, esse isolamento geralmente é decorrente do afastamento de outras pessoas. Então, a inabilidade social para arrumar namoradas, arrumar amigos, é, sobretudo, um comportamento que não foi maturado. Uma criança quando está com raiva diz coisas como “eu vou te matar”, porque ela não tem noção da gravidade disso. Uma pessoa que chega na adolescência ou na vida adulta, tem uma arma na mão e comete um crime por motivos que nós consideramos banais, e digo nós porque não estamos sentindo o que ela sentiu, também não amadureceu essa habilidade social de se reorganizar, de se afastar e de deixar o outro seguir -.

A polícia investiga se os atiradores da escola Raul Brasil planejaram o crime na chamada deep web, uma parte da internet que não é acessível para a maioria dos usuários e que é “habitada” por sites e perfis de criminosos, e em fóruns de jogos de videogame.

Para Ana Karine, os jogos violentos não são os fomentadores de crimes dessa natureza, e sim a falta de acompanhamento dessas pessoas que sofrem algum tipo de adoecimento mental.

– No caso deles (atiradores da escola) temos a ausência da figura materna, que é um agravante social, e o uso de drogas dentro da família, que já somam duas características. O jogo em si, não podemos dizer que vai causar um comportamento violento. É a mesma coisa de um esporte de contato, o cara está no campo e “desce o cacete”, mas fora de lá ele está organizado mentalmente, pois exerceu a agressividade dentro de um ambiente possível. Já o bullying é um comportamento de ódio que a vítima nutre contra o outro que pratica esse ato. Ele sente que está sendo “assassinado” a cada vez que o outro faz esse comportamento de chateação, de exclusão. Então, ele se considera ali estando morto, a vida dele deixa de ter significado e a vingança acaba sendo o objetivo de vida desse jovem. Com todo esse ambiente, infelizmente, nós temos pessoas para formar sociopatas, pedófilos, e eles estão nas redes sociais e atuando para isso. Eles pegam um perfil desse, de uma pessoa isolada, de uma pessoa que posta que está com ódio de alguém, e ele vê que o perfil psicológico dessa pessoa é danoso, ele vai se aproveitar, fomentar o ódio e dizer que aquela violência é a solução. O Estado, infelizmente, não faz esse acompanhamento como os criminosos fazem, e aí eles ganham espaço. Eu acredito que o perfil psicológico desses jovens [atiradores] era extremamente frágil e eles não foram cuidados – ressaltou.

Por fim, a psicóloga destacou que a legitimidade do discurso do Estado na liberação da posse de arma, e de que a pessoa pode se defender de quem a ataca com uma arma de fogo, está facilitando o acesso ao homicídio.

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