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Especial Mês da Mulher – Estela Bezerra: Valorizando o feminismo

Da Redação com Ascom. Publicado em 8 de março de 2019 às 12:42.

Defensora da soberania popular, dos direitos humanos e da igualdade de gênero, Estela Bezerra é formada em jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Trabalhou como assessora de imprensa, produtora cultural e é umas das fundadoras do Coletivo Feminista Cunhã.

Esse pioneirismo acompanha toda a trajetória de Estela, dando a parlamentar o orgulho de ser a primeira mulher em diversos cargos ao longo da carreira. Foi a primeira Coordenadora de Políticas para as Mulheres na cidade de João Pessoa, e também Secretária de Transparência, Orçamento Democrático e Planejamento entre 2005 e 2012.

Concorreu pela primeira vez a um cargo eletivo em 2012, quando disputou a prefeitura da capital paraibana. Foi secretária de Comunicação do Estado da Paraíba e Chefe de Gabinete do ex-governador Ricardo Coutinho.

Foto: Ascom

Foto: Ascom

Em 2014, Estela foi eleita deputada estadual pelo PSB, tornando-se a primeira mulher a presidir a Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ). Atualmente, em seu segundo mandato, foi eleita por unanimidade presidente da Comissão de Educação, Cultura e Desporto, além de compor a Comissão dos Direitos da Mulher

A senhora já ocupou espaços sociais que antes não eram ocupados por mulheres, ou que nunca tiveram mulheres em situação de protagonismo?

Estela Bezerra: Sim, eu sempre estive em ambientes predominantemente ocupados por homens. Eu sou uma mulher de muitos ambientes masculinos, desde produção, até gestão pública. Eu fui a primeira mulher em muitos espaços, a primeira mulher na Secretaria de Planejamento, a primeira mulher em produção artística em espaços que só trabalhavam homens. E sempre me dei muito bem nos espaços masculinos, porém, em uma linguagem em que os homens me tinham muito mais como próxima deles, do que reconhecendo que ali chegava uma pessoa que trazia um universo. O feminino para aquele lugar.

Os homens só vão conseguir reconhecer uma diferença, quando houver uma escala muito maior de mulheres na participação. Por exemplo, até hoje, a proporção de mulheres não modificou a cultura, mas a gente já conseguiu duas diferenças aqui: nós conseguimos os banheiros femininos, e a acessibilidade.

Como foi ingressar na carreira política? Foi um desafio para a senhora fazer a campanha? Em algum momento se sentiu em desvantagem dentro de um cenário que dá mais credibilidade a candidatos homens?

Estela Bezerra: Lógico! É tão interessante… A mulher fala uma coisa e ninguém escuta, um homem vem depois e fala a mesma coisa, e todo mundo escuta. E é exatamente isso, parece que as mulheres são invisíveis no espaço público. Para as mulheres estarem e serem reconhecidas no espaço público têm que ser muito brilhantes, muito diferentes, têm que gritar muito.

Para a Assembleia, acho que vai ser um momento muito rico, a palavra é essa! Muito rico e muito profícuo! Porque as mulheres que estão eleitas aqui são mulheres com luz própria, com protagonismo. E acho que vai ser muito bacana, cada uma na sua área, cada uma na sua condição. E eu espero que a gente consiga também, em momentos específicos, trabalhar temas em comum. Eu acredito que existem temas comuns a todos os mandatos das mulheres, independente de serem oposição ou situação. Como eu trabalhei muito tempo com Camila em diálogo e em parceria. Na bancada socialista nós temos o mandato de Pollyana e o mandato de Cida, e nós podemos avançar muito em bandeiras comuns.

Mas, a descredibilização das mulheres se dá de duas maneiras, principalmente na política, a invisibilidade e a desqualificação. Um homem gritando é um homem forte, uma mulher gritando é uma mulher desequilibrada. Muitas vezes, eu vi homens gritando aqui, e nunca foram chamados de loucos. Sempre dizem que eles se excederam ou ficaram nervosos. Se fosse uma mulher, o rótulo de louca nunca sairia dela. Se uma mulher fizesse metade do que alguns homens aqui já fizeram, elas jamais recuperaria a sua credibilidade.

Como a senhora se sente tendo conquistado seu espaço aqui, no Poder Legislativo, mesmo tendo que enfrentar uma grande dificuldade de gênero, que faz com que as mulheres sejam uma minoria de cinco dentre 36 deputados?

Estela Bezerra: É uma sub-representação que reflete a sub-representação das mulheres na sociedade. Somos maioria numérica, mas somos desvalorizadas. Esta desvalorização aparece claramente em três setores: no setor do poder e da participação, como aqui na representação política, na representação econômica, porque nós estudamos mais e ganhamos menos, e o outro lugar de subrepresentação, e também de grande opressão às mulheres, é a violência. O único sujeito que é morto pela sua condição de ser é a mulher. A dominação e a opressão contra as mulheres se expressam muito claramente nesses lugares.

Na política, notadamente, a dominação vai desde a desqualificação da fala das mulheres, até a violência simbólica e material. Como o que aconteceu, por exemplo, com Marielle. Marielle foi calada por uma bala! E foi pela milícia, que não suportou que uma mulher negra, que estava na política representativa, pudesse confrontar a ação das milícias nas favelas. O lugar de onde ela vinha, onde ela passou a representar democraticamente os interesses daquele lugar.

Como foi presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ)?

Estela Bezerra:Eu fui a primeira mulher na CCJ, eu abri as portas e Pollyana está lá. E se Deus quiser virá outra mulher depois dela. Eu quero que seja uma porta aberta! É bom abrir mesmo as portas, com toda força. A CCJ foi um lugar de grande aprendizado, e eu nem sabia que era um lugar tão disputado. Eu entrei lá querendo aprender. É um lugar muito estratégico, você aprende muito rapidamente como a Casa funciona, quais são as matérias de grande relevância, tem a visão dos outros Poderes, e isso termina lhe dando condições de criar relações com essas instituições. Então, foi de grande aprendizado, e eu como uma aliada do governo e dessa gestão socialista, pude contribuir de maneira muito estratégica para a estabilidade da relação entre a Assembleia Legislativa e o Executivo. Estabilidade política que permitiu, por exemplo, que a Paraíba avançasse muito nesses quatro anos.

A senhora foi eleita recentemente presidente da Comissão de Educação, Cultura e Desporto, quais são os seus planos para este novo desafio e para o novo mandato?

Estela Bezerra: Olha, agora eu estou presidindo a Comissão de Educação e Cultura, mas é uma comissão que eu sempre integrei. Eu sempre fiz questão de integrar a comissão de Educação, Cultura e Desportos e a Comissão das Mulheres. Estarei na Educação que pra mim é um tema prioritário, e eu acho que a educação e a cultura são os principais vetores de transformação de uma sociedade. Eu que trabalho com temas como o direito da mulher e todo mundo diz: “Estela, como é que se combate a violência?”, se combate a violência na mente das pessoas, se combate a violência contra a mulher mudando a mentalidade, a cultura, e a visão das mulheres. Alguém diz assim, “Estela, é importante montar uma delegacia da mulher?”, é importantíssimo! Do mesmo jeito que é importante fazer com que as músicas populares não desqualifiquem as mulheres, não ensinem às crianças e à sociedade que mulher vale menos, que não tem o mesmo valor.

Por consequência dos altos índices de feminicídio, o tema está sendo muito pautado na mídia, na política, e está mobilizando ações de combate a este crime. Como a senhora avalia a conjuntura do nosso Estado e o que pode ser feito para diminuir essa realidade tão difícil?

Estela Bezerra: A Paraíba é o Estado que mais avançou em políticas pública, e o Brasil também progrediu muito. Da década de 1980 para cá, o Brasil teve um grande avanço. O Brasil, na década de 1980, subscreve a convenção, que ficou conhecida como a convenção de Belém do Pará, e nessa convenção ele tinha se comprometido a tipificar o crime contra a mulher, e criar instrumentos de combate. Só conseguiu fazer isso depois de Lula e Dilma como presidentes. Aqui na Paraíba com o governador Ricardo. O que é que nós temos hoje na Paraíba?! Nós temos uma Secretaria das Mulheres, nós temos uma Coordenadoria de Delegacias Especializadas, temos 14 delegacias e dois núcleos, nós temos a tipificação, temos o feminicídio reconhecido, temos o Fórum Especializado criado pelo Tribunal de Justiça. Nós temos o programa que identifica e cria o protocolo que mantém monitorado e a distância os agressores às mulheres…

Temos uma situação na Paraíba de política pública que envolve: Ministério Público, Executivo, sociedade civil e a saúde. Nós temos na saúde, a atenção às mulheres vítimas de violência sexual, nós temos o centro de referência e temos a casa de apoio às mulheres vítimas de violência, que impediu que muitas mulheres e seus filhos fossem vítimas de homicídio. Aí você me diz: “Estela, o que é que falta?” Falta trabalhar no âmbito da cultura. Porque quando você tem todo o aparato de cuidado, e de julgamento, de punição, você não pode achar que você vai impedir a violência colocando um guarda em cada casa. Não é possível você imaginar que em cada esquina haja um guarda que vai prevenir que um homem dentro de casa espanque ou mate a sua companheira. É necessário que a gente trabalhe no âmbito da cultura! E na desconstrução da naturalização da violência contra a mulher. Então, a Paraíba, do ponto de vista dos aparatos de cuidado, criou todos. Precisa fortalecer, precisa interiorizar, mas não se omitiu. Inclusive trabalha de maneira exemplar, de forma intersetorialidade, dentro do Governo do Estado e dentro do Poderes.

Recentemente, eu estive no lançamento da campanha, “Meu corpo não é sua folia”, para prevenir abuso de importunação sexual durante o carnaval. E estavam lá sentados, o Ministério Público, o Tribunal de Justiça, a Secretaria das Mulheres, a Secretaria de Saúde, a Secretaria de Segurança Pública e o Movimento Organizado de Mulheres. Então, você tem ali todos os agentes públicos, todos os agentes políticos, que são diretamente ligados e que podem fazer alguma coisa com o tema. Nós temos a resolução em caminho, o que nós precisamos é fortalece. Agora, é necessário mudar a cultura. Porque ao mesmo tempo nós temos agentes sociais e políticos querendo desqualificar as mulheres e isso precisa ser inibido.

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