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Diretor comenta desafios para montar ‘O Beijo no Asfalto’; Peça estreia neste sábado

Da Redação. Publicado em 23 de março de 2019 às 17:30.

Em março de 2018, Elio Penteado atuou também na peça 'O Casamento de Trupizupe com a Filha do Rei'. Foto: Arquivo do Teatro Municipal Severino Cabral.

‘O Casamento de Trupizupe com a Filha do Rei’ – Foto: Arquivo do Teatro Municipal Severino Cabral/ Reprodução – Facebook

O diretor de teatro Elio Penteado apresenta neste final de semana, 23 e 24 de março, o espetáculo ‘O Beijo no Asfalto’. É uma adaptação da obra escrita pelo dramaturgo carioca Nelson Rodrigues.

Nos dois dias, a peça tem início para o público a partir das 20 horas no Teatro Municipal Severino Cabral, em Campina Grande (PB). O ingresso custa R$ 10 para meia-entrada e R$ 20, inteira.

No elenco, estão os alunos que ele mesmo formou durante o período de um ano enquanto professor do Curso de Formação de Atores. São eles: Artur Alan (no papel de Arandir), Joyce Febber (Selminha), Francisco Nascimento (Aprígio), Xica Lúcia (Dona Judith), Rafael Barbosa (Werneck), Luís Eduardo Farias (Amado Ribeiro), Cabral Weghany (Cunha), Paula Correia (Dona Maltide), Deyvson (Aruba), Calliandra (A viúva) e Karoline Yorrana (Dalia).

Originalmente publicada em 1960, a obra lida com assuntos complexos do cotidiano. Estão em cena a hipocrisia social, o preconceito, o conflito familiar, a mídia sensacionalista e a polícia corrupta.

Em março de 2018, Elio Penteado atuou também na peça ‘O Casamento de Trupizupe com a Filha do Rei’

Para saber como foi que ocorreu todo o processo criativo para a produção de ‘O Beijo no Asfato’, o Paraíba Online entrevistou, nesta sexta-feira (22), Elio Penteado, 75 anos.

Natural de São Paulo (SP), ele mudou-se para Campina Grande (PB) em 2007. Há seis anos ensina no Teatro Municipal Severiano Cabral, período no qual dirigiu 4 espetáculos.

Na trajetória de professor, ele disse que as duas peças mais importantes com as quais colaborou diretamente com a produção foram: ‘O Casamento de Trupizupe com a Filha do Rei’ e ‘O Diário Noturno de um Homem Vil’.

Confira como foi a conversa:

Paraíba Online – Como você chegou ao texto de Nelson Rodrigues?

Elio Penteado – Tudo começou no ano passado, por volta de junho. Foi quando começamos a pesquisar um texto para montar. Foi exatamente no início de um processo de situações conflitantes na sociedade brasileira. Ali, começaram a aparecer as ‘fake news’. Teve também os discursos do atual presidente a favor da violência e se mostrando uma pessoa preconceituosa, homofóbica e machista. Estas coisas todas começaram a aparecer na sociedade brasileira no período em que começamos a discutir o texto. A partir de conversas com todos os atores e atrizes, começamos a ver semelhanças com textos de dramaturgos considerados ‘malditos’, como Plínio Marcos e Nelson Rodrigues. Assim, frente ao debate sobre homofobia e sobre o preconceito contra homossexualidade, ligadas às ‘fake news’, lembramos do texto de Nelson, ‘O Beijo no Asfalto’.

Em março de 2018, Elio Penteado atuou também na peça 'O Casamento de Trupizupe com a Filha do Rei'. Foto: Arquivo do Teatro Municipal Severino Cabral.

‘O Casamento de Trupizupe com a Filha do Rei’ – Foto: Arquivo do Teatro Municipal Severino Cabral/ Reprodução – Facebook

Os atores e atrizes estavam ainda em formação. Eu mesmo, logo no início, disse: ‘Gente, esse texto é muito denso. Vocês ainda estão se formando. Me deixa um pouco preocupado com o resultado. Não é que eu não confie em vocês. Eu confio. Mas é porque vocês tem pouca maturidade cênica para enfrentar um texto deste porte’. Só que na medida em que começamos a estudá-lo, eu comecei a perceber que o entendimento deles estava sendo muito bom. A maturidade deles ajudou no processo. É uma turma não tão jovem assim. O mais novo tem 20 ou 21 anos e tem pessoas de mais idade também. Com isso, eu me animei e disse: ‘Vamos assumir o texto’. Foi uma alegria geral. A partir dai, começamos o processo de ensaio.

Paraíba Online – Usou o texto na íntegra. Por quê?

Elio Penteado – Usei, porque verifiquei que eu teria algumas dificuldades no sentido de concepção caso alterasse. Cheguei a pensar em alguns momentos em reduzir o texto e adaptá-lo. Pensei que teria dificuldades cênicas. Mas percebi que teria como fazer o texto integral com adaptações cênicas. Essas adaptações foram só no sentido de abandonar o lado analógico da imprensa e trazer pra uma realidade tecnológica atual. As ‘fake news’ sendo feitas através do processo das redes sociais: What’s App, Twitter, Facebook. Esse espetáculo tem cenas que foram gravadas pelos próprios atores e atrizes. Isso facilitou a concepção cenográfica. Assim, percebemos que daríamos para fazer o texto inteiro. Trouxemos também a história para Campina Grande, em vez do Rio de Janeiro da década de 60. É um urbano menor, do ano de 2019

Paraíba Online – Quais desafios você enfrentou no processo de ensaio com o elenco?

Elio Penteado – Lógico que é um desafio lidar com um elenco de atores e atrizes que estão em processo inicial de formação: não só em termos do texto de Nelson Rodrigues, como de qualquer texto. É um desafio porque a maturidade cênica só vem com o tempo, só vem com exercício, só vem com o fazer. Mas, de qualquer maneira, como a gente tinha combinado e eu topei o desafio, fomos em frente. Os desafios maiores que a gente enfrentou nesse processo, graças a Deus, não foram quanto ao entendimento do texto, mas sim na disponibilidade de cada ator e atriz de deixar seu sentimento, sua emoção, seu interior aparecer e desabrochar.

É um texto denso, um texto de certa maneira pesado e visceral. Então há uma necessidade dos atores e atrizes se deixarem levar por essa emoção. Porque trata-se de uma tragédia. E essa experiência para eles foi inusitada. Eles tiveram que trabalhar muito. Fiz muitos exercícios com eles de sensibilização e de toque para criar neste elenco uma intimidade que eles precisavam ter. Uma intimidade muito grande, porque participariam de um processo bem forte e bem denso. Esse foi talvez um dos maiores desafios, mas que nós conseguimos superar porque também fizemos exercícios fortes.

Esses exercícios foram tão importantes que me mostraram e me deram a condição de ter uma percepção de escolher cada ator e cada atriz para o determinado personagem. Cada um deles está fazendo um papel desafiador – não quer dizer que sejam parecidos com eles. Não, ao contrário. Todos eles estão sendo desafiados a mostrar todos os seus lados – Nós seres humanos, temos o lado bom, amoroso, carinhoso, mas também o lado perverso e cruel. Tudo está dentro da gente. Quando nós precisamos num processo de criação usar tal característica para um personagem, vamos buscar na nossa memória emotiva essas sensações, mesmo que sejam sensações que não cultivamos no dia a dia.

É o caso, por exemplo, do delegado e do jornalismo. São dois seres humanos muito, muito imorais, muito sem nenhum escrúpulo, muito calhordas e patifes. Até mesmo posso usar uma palavra mais dura: são escrotos. Agora, não quer dizer que os dois atores sejam assim no dia a dia. Não são. São exatamente bem ao contrário disto. Mas eles mostraram em todos esses exercícios, como os demais, que sabem fazer esses personagens.

Em março de 2018, Elio Penteado atuou também na peça 'O Casamento de Trupizupe com a Filha do Rei'.

‘O Casamento de Trupizupe com a Filha do Rei’ – Foto: Arquivo do Teatro Municipal Severino Cabral/ Reprodução – Facebook

Paraíba Online – Como foi montado o figurino?

Elio Penteado – Entreguei o figurino para minha esposa, Emília França. Ela é atriz e tem uma percepção muito boa para criar adereços, figurinos, enfim. Ela é uma atriz completa. Ela conhece e trabalha em todos os setores que temos que trabalhar como ator ou como atriz. Então, a partir de um determinado momento do processo de ensaio, nós começamos a conversar. Depois estudamos o texto juntos, momento a partir do qual ela começou a ter ideias, fazer pesquisas e criar condições para desenvolver o figurino. Analisou cada personagem e cada perfil do ator e da atriz. Começando pela forma física do ator e da atriz. O que era necessário ser explicitado através do figurino, como simbologia. Uma das atrizes carrega consigo um figurino todo azul bebê e outro está toda rosa choque. A viúva, por exemplo, foi mais fácil. Para a Selminha, colocamos uma roupa de uma jovem mulher casada. O pai tem uma simbologia muito forte porque parece um coronel. Assim foi. O figurino tem muito da criação da Emília, mas também tem muitos de todos os atores que se envolveram na montagem.

Paraíba Online – O que as pessoas podem esperar da peça neste final de semana?

Elio Penteado – Quando desenvolvi a peça junto com eles – e este não é um trabalho só do Élio. É um trabalho do Élio mais todos os 11 integrantes do elenco. Foi coletivo. Grupal mesmo – a ideia sempre foi chocar a sociedade, para que ela parasse, pensasse e se colocasse no lugar daqueles personagens em relação a sua posição no cotidiano. E sair do teatro fazendo uma reflexão: Quem sou eu? Eu me identifico com algum destes personagens? Será que minha maneira de agir é desta forma? Será que eu também, sem perceber, sou ou atuo de forma preconceituosa? Será que eu acredito nas ‘fake news’ em vez de buscar fontes fidedignas?

É um questionamento. É um questionamento que a gente quer a sociedade faça. Nós estamos vivendo um momento muito difícil, não só no Brasil, mas no mundo. Então é necessário que as pessoas parem e reflitam. E qual é o papel do artista diante disso? É esse. É fazer com que as pessoas que vão ver nossos espetáculos parem, vejam, ouçam e saiam refletindo sobre o que viram. Sobre a mensagem e sobre a simbologia do que representa aquilo, bem como se colocar no lugar do personagem, vendo como é que se comportamos no dia a dia? Essa reflexão, fatalmente, é o que faz com que as pessoas se situarem. E de repente, começarem a refletir se não devem mudar sua atitude sua posição sua maneira de ser em relação a terceiros e a outras ideias, às diferenças. Acreditamos que é assim que se cria uma sociedade justa e democrática.

*Entrevista e reportagem por Allan Gomes

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