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Campina Grande - PB

Macri busca respaldo politico para conter crise na Argentina

13/05/2018 às 10:14

Fonte: Agência Brasil

foto: arquivo

O indiano Anoop Singh ficou surpreso com o nível de informação dos argentinos, durante sua visita a Buenos Aires, em 2002. Na saída do hotel, ouviu o comentário da faxineira que estava limpando a recepção: “La vem o pessoal do Fundo”.

Naquela época, ele chefiava a missão do Fundo Monetário Internacional (FMI), que mais uma vez vinha resgatar a Argentina de uma crise – mas nunca imaginou que a instituição financeira, com sede em Washington, fosse tão conhecida.

“Na Argentina, termos como FMI e crédito stand-by fazem parte do jargão popular e são sinônimos de ajuste e crise”, explicou à Agência Brasil o analista politico Rosendo Fraga.

“O presidente Mauricio Macri pagou um preço politico por ter recorrido, esta semana, ao Fundo – uma organização que é rejeitada pela maior parte dos argentinos e inclusive por dois de cada três simpatizantes da coalização governista de centro-direita, Cambiemos. No inconsciente coletivo, FMI e uma má palavra”.

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Para conter crise, Argentina recorre ao FMI (Agência Brasil/Arquivo)

Desde terça-feira (8), quando anunciou que iniciaria esta semana negociações para um acordo com o FMI, Macri tem buscando respaldo politico interno e externo.

Na sexta-feira (11), o presidente da China, Xi Jinping, não só manifestou seu “firme apoio” aos esforços do governo argentino, por manter a estabilidade econômica, como também ofereceu ajudar, se necessário.

No comunicado, o governo chinês elogia Macri por ter adotado medidas “oportunas e enérgicas” para lidar com os “fatores externos” (aumentos das taxas de juros nos Estados Unidos e do preço do barril de petróleo no mercado internacional), que impactaram vários países emergentes, além da Argentina.

O apoio publico de Xi Jinping somou-se a outros do Departamento do Tesouro norte-americano e dos governos do Brasil, do Chile, da Espanha e do Japão – um sinal de que a diplomacia argentina entrou em ação para reforçar o discurso de Macri, de que a Argentina tomou a melhor medida preventiva, para amortecer os efeitos negativos dos “fatores externos”, que escapam a seu controle. Mas os argentinos estão mais preocupados em como isso vai afetar seu próprio bolso.

“Por experiência própria, só sei que cada vez que o dólar aumenta, os preços sobem”, diz o porteiro Carlos Dominguez, de 53 anos. “O FMI, os Estados Unidos e a China podem dizer o que quiserem, o certo é que o dólar continua subindo. E para mim, é isso que importa”. Como milhares de outros argentinos, cada vez que pode, ele poupa em dólares, que guarda em esconderijos, dentro de casa e fora do sistema financeiro. É o que os argentinos chamam de Colchon Bank, ou banco do colchão.

Colchon Bank

Em dezembro de 2015, quando Macri tomou posse, os argentinos tinham US$ 195 bilhões fora do sistema financeiro, guardados em cofres (nos bancos e em casa), mas também nos lugares mais inusitados (dentro de caixas de sapatos, aquecedores ou literalmente enterrados em vasos de plantas ou no quintal). O valor equivale a três vezes as reservas internacionais do Banco Central da Argentina, que esta semana totalizavam US$ 57 bilhões.

A intenção do atual governo era atrair esses capitais para financiar um programa de obras públicas, que permitisse a retomada do crescimento da economia, depois de anos de estagnação. Por isso Macri eliminou os controles cambiais e impostos às exportações de produtos da agroindústria, além de atualizar os preços das tarifas dos serviços públicos, congeladas e subsidiadas desde a crise de 2001.

“Macri herdou uma situação complicada: tarifas defasadas, que desestimulavam o crescimento; um nível de reservas baixo; uma inflação anual de dois dígitos; e um país sem acesso a créditos estrangeiros, desde a moratória de 2001, que não tinha terminado de ser renegociada”, disse, em entrevista à Agência Brasil, o economista Gaston Rossi.

“Ele tinha que consertar esses desequilíbrios, mas não podia fazer tudo de uma só vez. Por isso optou pelo gradualismo”.

Sem maioria no Congresso, Macri conseguiu aprovar a reforma da Previdência a duras penas. A votação, em dezembro do ano passado, teve que ser adiada depois que confrontos entre manifestantes e a polícia resultaram em dezenas de feridos e detidos.

O governo também tem uma proposta de reforma trabalhista, que ainda não começou a ser discutida. Macri enfrenta a oposição dos sindicatos, que historicamente estão ligados ao Partido Justicialista (PJ) ou Peronista, hoje dividido em diversas facções. Entre elas, a União Cidadã da senadora e ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015), viúva do ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007).

Segundo Rossi, espera-se que o FMI exija o estabelecimento de determinadas metas econômicas, como a redução do déficit fiscal, que atualmente representa 6% do Produto Interno Bruto (PIB) e que o governo espera cortar pela metade.

“Mas dentro de um contexto de mudança de cenário externo, a Argentina se viu forçada a buscar assistência do Fundo, para tentar acalmar os mercados. Agora o fundamental é mudar o ânimo dos investidores”, disse o economista.

Resistência

O problema, segundo Rosendo Fraga, vai ser mudar os ânimos dos próprios argentinos. “Os eleitores entenderam que Macri herdou uma situação difícil, mas politicamente esse argumento tem data de vencimento. Só vale durante os primeiros dois anos de mandato”, explica o analista politico. “Agora os argentinos estão cobrando resultados do presidente, que prometeu e não conseguiu reduzir a inflação”.

As centrais sindicais e organizações sociais de esquerda marcharam até o Congresso na quinta-feira (10), em apoio a um projeto de lei da oposição que limita os aumentos das tarifas públicas.

O secretário-geral da Central de Trabalhadores da Argentina (CTA), Hugo Yasky, prometeu convocar uma greve geral se o presidente vetar a lei, que foi aprovada pela Câmara dos Deputados e ainda será submetida ao Senado. Macri já disse que vai vetar porque, se for implementada, criará um rombo no orçamento.

Os sindicatos já convocaram para o dia 28 de maio um “plano de luta”, com mobilizações até o fim do mês, para resistir a qualquer ajuste. O líder da Associação de Trabalhadores do Estado (ATE), Hugo Godoy, reclamou aumentos salariais equivalentes a inflação, que supera os 20% anuais.

Carlos Ernesto Calabrese, de 43 anos, trabalha numa empresa de segurança há cinco anos. “Comecei ganhando 6 mil pesos e o dinheiro alcançava ate o fim do mês”, disse, acrescentando, “hoje ganho 15 mil pesos, quase três vezes mais, e não alcança. Os preços aumentam muito mais do que o salário”.

carlos calabrese
Segurança Carlos Calabrese reclama dos aumentos constantes dos produtos (Monica Yanakiew/Agência Brasil)

Verdes

Na sexta-feira (11), apesar do apoio externo político e financeiro, o dólar bateu novo recorde. Superou os 24 pesos, apesar da intervenção do Banco Central. Os canais de televisão e as emissoras de rádio acompanhavam passo a passo o comportamento da moeda norte-americana, especialmente porque, na próxima terça-feira (15), a Argentina terá que fazer frente a um vencimento de 600 bilhões de pesos em Letras do Banco Central (Lebac).

A disparada do dólar, que começou na semana passada, foi acompanhada pelo aumento da alface, do espinafre e da rúcula, cujos preços duplicaram. “Parece que tudo que é verde aqui está aumentando”, queixou-se Cristian Ortiz, comerciante de frutas e verduras. “Até a semana passada, eu vendia dois abacates por 50 pesos. Hoje somente um vale 55 pesos”, disse.

Comércio de frutas e verduras, em Buenos Aires, Argentina
Comércio de frutas e verduras, em Buenos Aires (Monica Yanakew/Agência Brasil)

Os aumentos dos produtos “verdes” foram atribuídos, em parte, à forte chuva. Mas Consumidores Libres, uma organização de defesa dos consumidores, liderada por Hector Polino, registrou aumentos nos preços de farinhas e azeites nos supermercados. “O problema é que quando o dólar sobe, os empresários repassam os aumentos aos produtos”, diz Polino.

Brasil

Na Argentina, a imprensa comparou o impacto do aumento da taxa de juros norte-americana e do dólar em vários países emergentes, especialmente o Brasil. Mas todos concordaram que a situação das duas economias é muito diferente. Além de ser maior, a brasileira tem um índice inflacionário bem inferior ao argentino e depende muito de financiamento estrangeiro.

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