Duciran Farena
* Procurador Regional dos Direitos do Cidadão Duciran Farena.
Quinta-Feira, 01 de Dezembro de 2011 14h33
A Copa da exclusão
“A Copa do Mundo será um evento ímpar que irá mostrar ao mundo a união do povo brasileiro, gerando oportunidades inigualáveis para a elevação da qualidade de vida da população, especialmente os mais carentes, nivelando diferentes classes sociais, raças, credos, em um único e vibrante refrão – Pra frente Brasil, salve a Seleção!”
Certo? Errado. O melhor refrão seria “A Copa da exclusão é nossa, com a desigualdade brasileira, não há quem possa”. Longe de representar qualquer ganho na redução da desigualdade, na verdade a Copa irá, além do desperdício de recursos públicos e da corrupção, de que já tratamos em artigo anterior, ampliar as nossas diferenças sociais, já extremas.
Quando a bola começar a rolar, provavelmente (se a seleção de Camarões não se classsificar) não haverá em campo nenhum país mais desigual do que o Brasil. Já estivemos pior. Em 1990, o Brasil era o campeão da desigualdade entre 45 nações avaliadas pela Organização das Nações Unidas. A renda média dos 20% mais ricos equivalia a 34 vezes a dos 20% mais pobres. Hoje a proporção é de 18 vezes. Mas o país ainda segue no top 10 da desigualdade. E o problema é que nossa seleção, infelizmente, parece que vai perdendo o fôlego para reverter o jogo, aos trinta e cinco minutos do segundo tempo.
Dos decantados BRICs, o Brasil foi o que menos avançou no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Em 2011, subimos uma posição no ranking, passando para o 84º lugar. O resultado reflete uma expectativa de vida de 73,5 anos, 7,2 anos de estudo em média de escolaridade e renda per capita anual de US$ 10.162 (ajustada pelo custo de vida).
Não surpreende que o Brasil amargue posição atrás dos consabidos Chile (44º) Argentina (45º) e Uruguai (48º), mas é inexplicável que a futura quinta maior economia do mundo perca feio também de Cuba (51º), México (57º), Panamá (58º), Costa Rica (69º), Venezuela (73º), Peru (80º) e Equador (83º). O governo bem que tentou defender-se da má repercussão alegando a limitação dos elementos utilizados para cálculo do IDH. No entanto, o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) tem um outro índice, o IDH-D, em que o indicador é ampliado para incorporar a desigualdade em distribuição de renda, educação e saúde, e, se aplicado este ajuste, o Brasil somente cai treze posições.
E em que a Copa contribuirá para mudar este quadro vergonhoso? Em nada. Contribuirá, e muito, para a piora da situação, drenando recursos que deveriam ser aplicados em saúde, educação e assistência social. Serão vinte e cinco bilhões – na projeção do governo, descontado o inevitável superfaturamento – investidos em um espetáculo para privilegiados, já que o povo não passará nem pela porta dos estádios, especialmente se o propósito for ganhar a vida com comércio ambulante.
Assim como no Pan-americano do Rio, não haverá pobres na Copa. Preferível um estádio vazio a ocupado pelo povaréu desclassificado, pela desprezível clientela do bolsa família.
Como se não bastasse isso, ainda há a lei da FIFA, a nova Constituição nacional para o torneio. Esta lei, dificilmente algum juiz ou tribunal declarará inconstitucional, sob risco de ficar com o mico, ou melhor, com o ingresso na mão. Sim, assim como fazia o FMI velho de guerra, quando ameaçava abandonar o Brasil à deriva (à época em que o país integrava o terceiro mundo, onde a miséria não embaça a alegria de viver), também o faz a FIFA: contrariem os desejos da nossa ímproba diretoria, e ficarão a ver navios (ou estádios vazios); levaremos o nosso torneio para outro canto.
Não é difícil imaginar o que será a Copa, nessas condições.
O jogo Afeganistão X Turcomenistão em Cuiabá, Natal ou Manaus (se chegarem a concluir seus estádios) terá o ingresso não numerado em arquibancada ao custo de R$ 300,00. As vendas pela internet iniciam à 1h15 da madrugada de um dia que será anunciado com antecedência de 30 minutos, e se esgotarão em questão de segundos. O torcedor que não conseguir adquirir seu ingresso nessa oportunidade poderá ainda fazê-lo comprando o ticket preferencial da FIFA, que será entregue diretamente no seu endereço mediante uma taxa adicional de R$ 250,00, ou o Fast Track, que evita filas, ao custo promocional de R$ 800,00.
A FIFA licenciará as palavras “Brasil”, “Copa do Mundo”, “Copa de 2014” “Copa do Mundo de 2014” e todas as combinações derivadas destas, além de “Pagode” “Samba”, os nomes das cidades-sede, as datas e horários dos jogos, layout e imagens da “JÁBURLEI”, a bola oficial da Copa, as cores verde e amarelo, e também qualquer imagem de mulher vestindo biquíni nessas cores, de tal sorte que o uso destas expressões ou imagens para fins comerciais ou não comerciais implicará no pagamento de direitos autorais à corrupta entidade.
As leis brasileiras, em especial o Código de Defesa do Consumidor e a Constituição Federal, não se aplicarão aos estádios e ao raio de 2 km de seu entorno, que serão considerados território submetido à soberania da FIFA durante todo o período da Copa. Aquele que tentar violar as regras da FIFA será qualificado dentro das leis internacionais de combate ao terrorismo.
Idosos e estudantes pagarão, ao invés de meia entrada, entrada dobrada. Estes, porque são arruaceiros e indisciplinados. Aqueles, porque podem ter a péssima ideia de sofrer um ataque ou bater as botas em momento de maior emoção, prejudicando o bom andamento dos jogos e os lucros. O socorro médico durante os jogos estará a cargo do SUS, que também arcará com o custo dos ingressos da entrada do pessoal médico (ou pensavam que podiam assistir de graça?)
Moradores de edifícios no raio de 2 km dos estádios cujos apartamentos possuam visão total ou parcial para os respectivos campos serão obrigados a abandoná-los durante o período dos jogos. Os apartamentos nessa condição serão assinalados previamente pelos esbirros da FIFA com uma inscrição P. R. na porta (Príncipes Regentes ou Ponha-se na Rua).
Vendedores ambulantes de qualquer produto que não seja patrocinador da FIFA não poderão se aproximar de um raio de 2 km dos estádios onde se realizam os jogos. Forças de segurança da FIFA, com o apoio das polícias brasileiras, farão a vigilância, e os infratores, digo, terroristas, capturados em flagrante, serão mantidos presos a pão e água, em conteineres fornecidos pelos patrocinadores, até o final da Copa.
Torcedores que ousarem tentar ingressar nos jogos com qualquer coisa ou produto que traga marca ou propaganda de qualquer empresa que não seja patrocinadora da entidade serão expulsos sumariamente do estádio pelas forças de segurança da FIFA, sem direito à devolução do valor do caríssimo ingresso, e serão marcados digitalmente para não comparecerem a mais nenhum outro jogo, como penalidade.
Vestimentas, mochilas e pacotes serão revistados cuidadosamente na entrada dos estádios, e produtos ou roupas de não patrocinadores que foram flagrados serão destruídos no ato e será vetada a entrada do criminoso no estádio, além de marcado digitalmente. Caso o infrator esteja vestindo roupas com logotipos ou propaganda de marcas não patrocinadoras será desvestido, com o uso da força, se necessário, as roupas serão queimadas, e será entregue às autoridades brasileiras para ser processado criminalmente por atentado público ao pudor.
Se durante os jogos alguma conduta for adotada pelo público – como um olé sincronizado, um toque especial de apito ou corneta, uma canção de torcida, e fizer sucesso, este passará a ser imediatamente propriedade exclusiva da FIFA.
Se alguma mulher mais entusiasmada levantar a blusa, o busto, se for bonito, passará a ser imediatamente de propriedade da FIFA, sem prejuízo da expulsão da indecente do estádio e sua entrega à autoridades brasileiras para que seja processada criminalmente por atentado público ao pudor.
Os terroristas que forem pilhados, a despeito destes cuidados, com marca ou propaganda de concorrentes diretos dos patrocinadores da Federação Internacional no interior dos estádios, durante a transmissão dos jogos, serão atirados do alto das arquibancadas, ou executados sumariamente.
Saudades do FMI... ao menos este não tinha patrocinadores (explícitos)....
Do jeito que a coisa vai, na ressaca do dia seguinte ao jogo final, com o fiasco futebolístico e o anúncio do IDH-2014 colocando o Brasil abaixo do Afeganistão e do Turcomenistão, só nos restará cantar: “A Copa da exclusão é nossa, com a desigualdade brasileira, não há quem possa”.
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