Rosa Lúcia Vieira Souza
* Professora do Colégio Damas em Campina Grande e Mestre em Linguística Aplicada ao Ensino
Texto:
Segunda-Feira, 12 de Setembro de 2011 23h23
Ler e escrever é preciso
Dentre as datas comemorativas do mês de setembro está registrado o Dia Internacional da Alfabetização, dia 08. Segundo o dicionarista Antonio Houaiss, comemorar é fazer festa, celebrar. Partindo dessa concepção, o que é possível celebrar hoje no que diz respeito aos resultados obtidos no processo de alfabetização? Muito se tem falado nos últimos anos na erradicação do analfabetismo. A história recente do Brasil está repleta de iniciativas de combate a esse mal. Muitos programas governamentais foram implantados com esse objetivo, verbas foram destinadas para esse fim. Avanços significativos foram alcançados. Mas foram suficientes?

Segundo estudos do Instituto de Estatística da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), dados mais recentes, de 2009, atestam que 793 milhões de adultos em todo o mundo, cuja maioria são mulheres e crianças, carecem de alfabetização básica. 67 milhões de crianças em idade escolar não estão matriculadas na escola e 72 milhões de adolescentes são privados de acesso à educação.

Resultados recentes da Prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização), que avalia a qualidade da alfabetização das crianças que concluíram o 3° ano, aplicada no 1° semestre de 2011 a cerca de 6 mil alunos de escolas municipais, estaduais e privadas alertam para a necessidade de se investir efetivamente em políticas públicas verdadeiras para sanar a dificuldade de leitura e escrita de nossa população. Nessa prova, que avalia a competência leitora das crianças que concluíram o 3° ano das séries iniciais do ensino fundamental, constatou-se que em um grupo de cem alunos desse nível de ensino, 43,9% não são capazes de entender um texto que leem, não apresentam proficiência em leitura. Apenas 56,1% dominam as habilidades esperadas em leitura para esse nível de ensino.

Se comparados os resultados da escola pública e da privada, a primeira apresenta um desempenho muito inferior. Na esfera municipal e estadual, apenas 48,6% dos alunos alcançam as habilidades de leitura esperadas para o 3° ano do fundamental. O Nordeste é uma das regiões com pior desempenho em leitura – 63,5% dos alunos da rede pública apresentam conhecimento abaixo do esperado, ou seja, não compreendem um texto que leem.

Segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o estado da Paraíba possui uma taxa de 21,7% de analfabetismo, quase o dobro do índice nacional que é de 11%. Em nove cidades da Paraíba as taxas de analfabetismo ainda são superiores ao restante da média brasileira.

A diretora geral da Unesco, Irina Bokova, publicou, por ocasião do Dia Internacional da Alfabetização, uma carta na qual relaciona alfabetização e paz. Ela afirma que “a alfabetização é pré- requisito para a paz, visto que acarreta vários benefícios nas esferas humana, cultural, social, política e econômica”. Alerta ainda que “na sociedade moderna, impulsionada pelo conhecimento, o analfabetismo é mais do que nunca sinônimo de exclusão e marginalização.”

Como, então, estimular o desenvolvimento humano, desejar uma sociedade justa e pacífica se não conseguimos, em pleno século XXI, movido por altas e eficazes tecnologias, promover uma educação básica de qualidade?

Se a inserção no mundo da escrita é fator primordial para uma sociedade mais justa e para que se estabeleça a paz, então a chave do problema é assegurar para todos uma escola de qualidade, em que não haja evasão; é garantir estrutura física adequada e acesso aos locais de estudo; é investir em formação inicial e continuada e na valorização do professor; é implantar programas sérios e eficazes para alfabetizar jovens e adultos.

Essas ações coordenadas, se não transformadas apenas em promessas de campanhas eleitorais, se concretizadas em compromissos políticos firmes e verdadeiros, podem gerar uma sociedade em que todos tenham o direito de, através da escrita, compartilhar emoções e informações, refletir sobre sua condição humana como sujeito inserido em uma sociedade, documentar sua história e registrar sua cultura, exercer, enfim, direitos de cidadão.
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