Oziella Inocêncio
* Oziella Inocêncio é jornalista, graduada pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Nas horas livres, costuma se aventurar na ficção literária, com a criação de contos e poesias.
Domingo, 29 de Janeiro de 2012 12h21
O dia em que a Mentira se apaixonou
Certa vez, muito inquieta e ansiosa, como de costume, a Mentira desejou se apaixonar. Cansada de estar sozinha, mesmo na boca de multidões, queria alguém para partilhar sua inteligência ímpar e admirar sua beleza.
Tentou a Amizade. O encontro não foi, deveras, dos melhores. A Amizade, excessivamente brilhante e cheia de energia, ofuscava-lhe. Falava sem parar, ria alto, chorava, pedia em excesso, emprestava grandes somas de dinheiro, tomava partido dos amigos, era desequilibrada porque muito emocional e altruísta. Não servia.
Aos ocelos bem pintados de vermelho da Mentira, o Amor revelava-se tão bonito, colorido, vivo... Mas não se deixava subjugar ou manipular.
Era livre, sincero e de uma pieguice que ela avaliava como ridícula. Oscilava, queria ficar sozinho, queria ficar junto, queria sexo demais, queria sexo de menos, talvez fosse bipolar ou sofresse de algum Transtorno Obsessivo Compulsivo.
Muito excêntrico o Amor - foi o que ela pensou, em resumo. Além disso, desprezava sua beleza tão cultivada. Romperam em 8 horas.
Gostava de desafios e traquinagens e chegou a visitar sua maior oponente: A Verdade, que sequer a recebeu para uma conversa íntima. A decepção foi profunda, no entanto, talvez, até a almejasse...
Como adivinhar as contradições da Mentira? A Mentira admirava a Verdade pela sua dignidade. Sabia-se inferior e gostava de testá-la, somente para ver se permanecia inabalável. A Mentira também pode ser bastante masoquista quando almeja.
Chegou a ter um caso avassalador com o Ódio, embora o considerasse extremamente feio, em especial quando sorria com aqueles dentes finos e pontiagudos.
O problema deles, como o de inúmeros casais, foi a competição – a popularidade era valorizada em demasia pelo Ódio e a Mentira, isso desafinava o relacionamento.
As barulhentas discussões ocorriam pelo mesmo motivo, cada qual que quisesse ter um séquito maior. Quando conferiam as porcentagens e gráficos que descreviam a simpatia do povo por ambos e os números mostravam-se desiguais, recomeçavam os eternos embates.
Certo dia, um pouco fatigada pelas tentativas malogradas, a Mentira marcou um encontro com o Remorso. Há alguns anos não o via, mas lembrava-se dos olhos fundos e azuis dele, que, a propósito, não compareceu, por padecer de depressão. Marcaram para duas semanas depois, conforme o tempo implorado pelo Remorso para voltar ao seu equilíbrio.
A Mentira anteviu naquilo um péssimo indicador. Como ser bela, para quem é triste? É certo que os tristes são mais sensíveis, mas não exatamente à beleza da Mentira, conjeturava ela. Porém, é da natureza da Mentira ser confiante e ainda havia sua inteligência para exibir.
Era um domingo à noite quando o Remorso resolveu aparecer. Ele adorava esse dia da semana e igualmente esse período em particular. Algo na Mentira o atraiu de súbito, enfastiado que estava da vida tristonha e enferma que levava nos últimos meses.
A Mentira parecia-lhe espontânea e bem humorada, sobre qualquer tema discorria com propriedade e seu poder de argumentação manifestava-se cativante como um raio de sol refletido nas árvores orvalhadas. Já a Mentira enxergava no Remorso o companheiro ideal. Silencioso, humilde, resignado, sem orgulho ou vaidades – a Mentira não podia crer que assim o fosse e apaixonou-se perdidamente.
Usando de sua habitual perfídia, a Mentira convenceu o Remorso a participar de um ambicioso projeto – queria alegrá-lo, convencê-lo que continuava na moda e enfatizou calmamente, para não assustá-lo, que necessitava ser mais divulgado.
Se havia quem não o sentisse, aliás, não era por sua culpa, não devia ser tristonho por isso. Tal eram as palavras acalentadoras da Mentira, que caíram como um bálsamo para o melancólico Remorso, dilacerado em tantas ocasiões pela certeza de suas falhas e negligências. Nunca alguém havia assim compreendido o Remorso e o libertado da culpa.
Então, enquanto ela trabalhava, ele a acompanhava. Às vezes, o Remorso sentia-se muito mal consigo, pois não conseguia amar a Mentira. Contudo, tinha a qualidade da paciência, da esperança, e prosseguia. Também a Mentira lhe fazia sorrir: Parecia irreal tudo aquilo que ela conseguia provocar. Ingenuamente, o Remorso terminava por encarar as circunstâncias como uma peça teatral de mau gosto, mas engraçada.
Nesse ínterim, o ciumento e ambicioso Ódio tramava algo contra o casal, à surdina. Ora, a parceria da Mentira com o Remorso não estava lhe sendo proveitosa. Quando a Mentira chegava, junto com a aparição do Remorso, logo em seguida vinha a Verdade, o Amor, a Amizade, o Perdão.
Não era permitida a entrada do Ódio. Somente algumas vezes em que o Rancor, seu companheiro de longa data, fazia-se presente. O Rancor estava em um imenso número de corações, quase não tinha tempo – e bom humor – para essa espécie de confraria e o que considerava “briga de comadres”. Além disso, tinha como inimigo mortal o Perdão.
Como condenava a complacência que o Perdão demonstrava! Era insuportável vê-lo naquele manto de brandura e alegria velada, enquanto ele, Rancor, sentia-se amargurado e insatisfeito.
Muito bem alimentado, o Ódio tratou de executar a derrubada daquele elo nefasto. Chamou o Remorso para uma conversa e mostrou que não eram nada engraçados os efeitos que a Mentira originava.
Exaltado e convincente bradou quantas confusões, sofrimentos e até mortes poderiam ser atribuídas a ela. O Ódio, naquele discurso tão descabido para ele, assemelhava-se ao Amor. Que ironia!
O Remorso sentiu tanto remorso naquele momento, que resolveu desaparecer por longos dias. Voltou à reclusão e ao silêncio, refletiu: “A Mentira era mesmo abominável! Como não percebera?” Cabisbaixo, deu-se conta de que, para senti-lo, não se fazia necessária a divulgação de seu nome, estratagema tão propagado pela Mentira como a saída para os seus males.
Era preciso apenas genuinamente arrepender-se, mas o arrependimento não se encontrava como doces na padaria. Adveio, como outrora, a frustração e a solidão, até que o Remorso se deparou casualmente com a Autocrítica.
Embora quase desconhecida, afinal poucos buscam exercitá-la, a Autocrítica dispunha de peculiaridades encantadoras. Cerebral, justa e sensata, ela conseguiu trazê-lo de volta a harmonia e o bom senso.
Em contrapartida, a Mentira, ainda muito magoada pelo surpreendente abandono do Remorso, amparou-se no Ódio. Muito previsível a Mentira: Reataram sem demora.
Os últimos números de popularidade observados avidamente pela dupla, denotam que estão de igual para igual. A malfadada competição se extinguiu, selando o amor dos dois para todo o sempre ou enquanto estiverem longe o Remorso e a Autocrítica.
*Dedico esse conto ao meu amigo Ronaldo Andrade, do Sebo Cata Livros, em Campina Grande, que tantas vezes me solicita novos textos nesta coluna.
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