Quinta-Feira, 15 de Dezembro de 2011 19h15
Também “Confesso que li”
Na noite da última terça-feira fui ao lançamento da coletânea “Confesso que li”, composta de depoimentos de trinta e quatro escritores paraibanos sobre suas leituras na infância e adolescência. O título é alusivo ao livro autobiográfico “Confesso que vivi” de Pablo Neruda. A obra foi brilhantemente organizada por duas mestras: Neide Medeiros e Yó Limeira.
Comecei a ler no dia seguinte e ele já me encantou nos primeiros relatos. Conhecer um pouco dos primeiros anos de aventuras literárias de autores tão importantes quanto diversos, através de suas próprias palavras, é como sentar-se à tardinha com amigos numa mesa de cozinha, com um bule de café bem quente e um bolo morninho com queijo de qualho e manteiga da terra. A conversa flui, os sorrisos abrem-se em risadas, o tempo escoa como areia fina por entre os dedos da mão aberta. Um deleite.
Confesso que também quis falar. Peço licença às queridas organizadoras para contar os meus primeiros anos de vida, quando eu, com cerca de cinco anos, já sabia ler as primeiras palavras e meu pai – um leitor voraz - quando tinha visita em casa, me chamava à sala e punha um jornal nas minhas mãos para que eu lesse as manchetes em voz alta, enquanto ele posava orgulhoso.
Contar que eu vasculhava a estante antiga, com porta de madeira e vidro, e lia tudo o que encontrava. Lembro de uma revista “Fatos e Fotos” com a reportagem do incêndio do edifício Joelma, em São Paulo, e de como me impressionei com aquelas imagens de pessoas queimadas. Havia a “Manchete” cuja capa era a foto da Taça Jules Rimet nas mãos dos jogadores da seleção Brasileira. A “Veja” com a capa da chegada do homem à lua. E muitas revistas “Seleções”, que eu lia e relia com prazer. Isso antes de completar dez anos.
Meu pai faleceu quando eu tinha oito anos mas no pouco tempo em que convivemos me legou esse gosto, esse imensurável afã de ler. Dele ganhei “O Tesouro da Juventude”, com seus dezoito inconfundíveis volumes com capa dura na cor azul e em cujas páginas passei muitas tardes debruçada. Também a coleção “O mundo da criança”, de capa vermelha, que apresentou-me os primeiros poemas, dentre os quais, “Meus oito anos” de Casimiro de Abreu, que eu adorava recitar.
Claro que eu li gibis, muitos e muitos. Convivia com as histórias da Turma da Mônica, do Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey, Bolinha, Luluzinha, Bolota, Brotoeja, Tininha, Riquinho, Mandrake, Fantasma, e os quadrinhos do Tex Willer, que pertenciam ao meu irmão. As crianças gostavam de ganhar brinquedos. Eu gostava de ganhar gibis. Tinha uma caixa de papelão enorme, onde guardava todos, devidamente enumerados e cadastrados num caderno.
Naqueles dias não era comum ter muitos livros infantis em casa. Eu costumava ler os que pegava emprestado da biblioteca da escola. Mas quando mudei para uma escola maior não encontrei lá uma biblioteca onde procurar meus tesouros. Mas aqui e ali eu encontrava algum e mergulhava sem salva-vidas na leitura.
Lembro das lágrimas que desciam silenciosas dos meus olhos juvenis enquanto eu acompanhava a caminhada de Fabiano e sua família em “Vidas Secas” de Graciliano Ramos. Como passar incólume por uma história dessas? Lembro ainda de como fiquei impressionada pela força destrutiva e deletéria das drogas ao ler “O estudante” de Adelaide Carraro e do choque que senti com a hipocrisia revelada em “Submundo da sociedade”, da mesma autora.
O tempo encarregou-se de abrir um leque de belos títulos na minha vida, o que me ajudou a crescer como pessoa. Alguns crus e fortes como “Os miseráveis” de Vitor Hugo, outros adocicados como “O amor nos tempos do cólera” de Gabriel Garcia Marquez e outros tantos.
Em toda minha vida eu deixei de ler em poucos e breves intervalos, que nem valem a pena serem lembrados. Ler pra mim é tão vital quanto ter uma ocupação na vida. Algumas pessoas dizem pra mim: “gostaria de ter tempo pra ler”.
Essas indubitavelmente não gostam de ler pois não existe momento, tempo ou maneira para isso. Ler requer entrega, compromisso, não com alguém mas consigo mesmo, com seu desejo, sua curiosidade, sua necessidade de saber. Eu leio em casa, na cama, no sofá, na rede. Leio nas filas de banco, nas salas de espera de consultórios. Leio de manhã cedo, no intervalo do almoço, antes de dormir. Eu leio quando o tempo pisca pra mim revelando-me aquela brecha propícia e então eu pego meu livro e aproveito, não sem piscar de volta pra ele. Somos parceiros de leitura.
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