Alberto Ramos
Alberto Ramos é médico endocrinologista, professor do curso de medicina da UFCG, coordenador da pós-graduação do HUAC/UFCG.
Texto:
Quinta-Feira, 10 de Novembro de 2011 11h15
Podemos ser otimistas?
Eu sempre fui chamado de otimista. O saudoso primo e amigo Amorim me chamava de Dr. Panglós. Este médico é um personagem do romance “Candide o Otimista” de Voltaire, para quem tudo estava cada vez melhor.

Há alguns dias enviei este texto nada otimista para alguns amigos e alguns deles acharam que eu deveria ampliar a discussão e trazer para este locus do paraibaonline. Concordei e o fiz apesar de minha área não ser a economia mundial. Na verdade ainda não sei qual é a minha área. Há alguns anos era a pequena área onde eu (severamente marcado por zagueiros façanhudos) esperava os lançamentos de Jovany ou de Saulo e arrancava para o gol.

Hoje não sei.

A minha resolução tem a ver com uma constatação. Que ninguém, assim como eu, não esta entendendo nada da situação. Constatei este fato após ler um artigo de Hélio Schwartsman na Folha de São Paulo, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0511201103.htm.

Ele levanta uma questão. Que talvez o povo nao tenha capacidade de opinar nesta época de dificuldades. Ou seja, dane-se a democracia.

A bem da verdade, nao e a opiniao dele. Ele cita o economista ultraliberal e militante libertário Bryan Caplan, em "The Myth of the Rational Voter" (O mito do eleitor racional) citado em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0511201103.htm
Este autor acha que os culpados são os eleitores e não o mercado.

Cita o caso da Islândia.

Parêntese meu.

Vale a pena assistir ao filme “Trabalho Interno” que ganhou o Oscar como melhor documentário. A introdução é sobre a Islândia. Explica como um estado de bem estar social quase modelo se transformou e se tornou uma máquina de fazer bilionários e de promover desigualdades e que obviamente explodiu junto com a bolha de 2008.

No entanto, diferentemente dos outros PIGS, os líderes da Islândia, ouviram o povo e deram um calote no sistema bancário, doa a quem doer e se preparando para a retaliação.

Mr. Claplan defende que, ao tomar decisões desta ordem, o povo islandês está apenas pensando no curto prazo e que é assim que as democracias produziriam estas distorções. Do ponto de vista dele, ao invés de discussões democráticas, pessoas “iluminadas” com o poder na mão, tomariam as decisões mais acertadas no longo prazo mesmo que isto ocasionasse sacrifícios no curto prazo.

Eu pessoalmente acho que este cara não conhece bastante a história nem conhece os dirigentes de bancos. Apesar de também não conhece-los, os atos que perpetram já falam sobre as suas personalidades. Eu acho que era Ronald Bigs que dizia que mais ladrão do que rouba um banco é quem funda um.

Por outro lado, as pessoas podem ser altruístas pensando diretamente ou indiretamente no longo prazo. Como exemplo direto cito duas das inúmeras vezes em que isto aconteceu.

Uma foi na China de Mao (antes da revolução cultural) onde a população foi instada (não obrigada, a diferença é sutil) a doar tudo que tivesse de ferro e derivados para que isto fosse utilizado para aumentar a produção de aço e “mostrar ao mundo que o regime era forte e competente”. Como se viu depois, foi um desastre. Este e outros fatos da China dos últimos 100 anos estão relatados no romance “Cisnes Selvagens” de Jung Chang.

Vale a pena.

Outro exemplo aconteceu logo depois do golpe de 64 quando a população brasileira também foi instada a doar “ouro para o bem do Brasil”. Muitos deram e também não resultou em nada de bom para o país. Talvez tenha resultado para alguns maganões que se apropriaram do vil metal.

A minha preocupação é que em um período conturbado da economia mundial, na falta de líderes competentes, ouvem-se ao longe, ficando cada vez mais perto, clamores pró-estados absolutistas principalmente de direita.

Os G8 e G20 da vida, ao que tudo indica vão dobrar a Grécia e impor um pacote de restrições. Será que os gregos são culpados? É óbvio que sim. Assim como os espanhóis, portugueses e islandeses (para citar apenas 3 dos chamados PIGS) que permitiram e usufruíram da farra neoliberal da bolha. No entanto, quem vai assumir o poder na Grécia e o partido de direita que ocasionou este impagável deficit. Assim como na Espanha e Portugal.

E este pessoal da direita cultua o deus "Mercado", que na opinião deles tudo pode e que vai resolver todos os problemas do mundo. O problema é que este deus não quer nem vai pagar a conta. Pelo contrário. Ainda estão e vão continuar a sugar trilhões da economia mundial, penalizando principalmente os mais pobres à custa de pacotes draconianos.

Afinal, é do sangue do miseraveis que este deus se alimenta.

Alguém pode perguntar: o que faz hoje em dia as pessoas serem menos solidárias e penderem para regimes absolutistas de direita?

Nao digo que sei a causa. Apenas tenho suspeitas.

Talvez a resposta seja que a partir dos anos 80, principalmente nos países do primeiro mundo, com a instalação do neoliberalismo e a queda do muro de Berlim,arrasando as economias de capitalismo de estado, autonomeadas de comunistas, tenha sido acelerada uma tendência individualista que foi magistralmente retratada por Tom Wolfe em ”A fogueira das vaidades” e em um livro de crônicas intitulado“A década do eu” onde uma das crônicas “Eu e minhas hemorroidas” mostra a progressiva perda da solidariedade e a hipertrofia do egocentrismo (ou egoísmo ou egoanalismo).

A análise que Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia faz sobre quem é que manda na economia americana no artigo disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0511201105.htmfortalece o que Tomas Wolfe escreveu.

Não foi a toa que Paulo Francis em uma de suas crônicas, elegeu “A fogueira das vaidades” juntamente com “Os filhos da Rua Arbat” de AnatoliRibakov como os dois romances mais importantes do final do milênio para descrever os decadentes (na época isto soava como heresia) impérios americano e soviético respectivamente.

A nosso favor vale salientar que nestes 30 anos, o Brasil, nadou contra esta corrente.

A partir do final da ditadura, apesar da nossa classe política, conseguimos aprovar a constituição mais igualitária de nossa história apesar dos seus muitos defeitos. Nela incluímos todos os brasileiros na previdência (que não existia para os agricultores até o final dos anos 70 se não estou enganado). Incluímos todos os brasileiros no sistema de saúde que mesmo mal financiado e pior gerenciado ainda,pode ser o mais igualitário do mundo e estamos conseguindo diminuir a fome, a miséria. Isto independentemente dos governantes. Progredimos em um ou outro aspecto em todos os governos pós ditadura. Isto mostra que um povo pode ser altruísta mesmo sem a propaganda que existiu na China de Mao e no Brasil da ditadura.

Digo isto porque nós, o povo, escolhemos pagar pelo déficit da previdência e pelo aumento dos custos com a saúde. Por grande maioria escolhemos ser solidários com os que nada tinham e os que nada têm, apesar de uma ou outra voz “cansada”.

E o Brasil, diferentemente dos paises do chamado primeiro mundo, está melhor hoje do que era há 30 anos. No entanto, como não somos uma ilha, é possível que as procelas internacionais atrapalhem a nossa vida. Isto tem a ver com o refúgio aparente que os regimes absolutistas oferecem (mais não cumprem) à população menos esclarecida e a falta de líderes verdadeiramente carismáticos na atualidade. Basta ver que o eleito “o mais influente do mundo” segundo a revista Forbes desta semana é o tíbio Obama que não consegue nem administrar o seu terreiro, tendo sido sistematicamente derrotado em tudo de importante que tem proposto.

Por estas e outras não sou otimista, apesar do que dizia o amigo Amorim.
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