Jurani Clementino
Jurani Clementino é graduado em Jornalismo, Especialista em Comunicação e educação, Mestre em Desenvolvimento Regional, Professor universitário e cronista. Atualmente faz Doutorado em Ciências Sociais pela UFCG.
Texto:
Terça-Feira, 06 de Fevereiro de 2012 23h20
Eu e as aventuras de Tintim
Em 1993, há praticamente vinte anos, eu e uma dúzia de amigos da minha idade cursávamos a quinta série do primeiro grau, o equivalente hoje ao sexto ano do ensino fundamental, na escola Manoel Salvador. Éramos todos alunos regulares de recém programa educacional criado pelo governo em parceria com a Fundação Roberto Marinho – O telecurso 1º e 2º graus, atual Telecurso 2000 – uma experiência que, naquele momento, buscava aliar o audiovisual como ferramenta educativa inspirada em modelos europeus. As aulas eram exibidas dentro da programação da TV educativa do Ceará.

Como material didático, recebíamos livros de má qualidade que em contato com a umidade triplicava em volume. O despreparo dos professores/monitores e a não-familiaridade dos alunos com aquele universo formavam um conjunto perfeito para a confusão do sistema educacional brasileiro.

Hoje tenho consciência que éramos - professores e alunos -, cobaias de uma experimentação educacional. Tudo era uma grande novidade. Muitos alunos moravam em comunidades que não possuíam energia elétrica e, portanto, aquele era o primeiro contato com a televisão. Outros já conheciam na condição de televizinho. Somado ao espanto do novo eles tinham que administrar aquele método educativo intercalado entre o (tele)professor e o professor tradicional. Nem sempre eles falavam a mesma língua ou comungavam com o mesmo pensamento.

A turma da 5ª série era numerosa, mas o assunto que mais nos prendia a atenção estava longe de serem aquelas aulas que por hora soavam chatas e cansativas. As nossas preferências estavam entre o Castelo Rá-Tim-Bum e um desenho cheio de aventura protagonizado por um moleque topetudo na companhia de seu cachorro esperto. “As Aventuras de Tintim” tornaram-se tão popular entre a gente que conseguíamos, sem muito esforço, convencer o professor a nos deixar ver o desenho, exibido exatamente no horário das aulas. Tintim era tudo o que a gente não era, mas representava o sonho aventureiro de todo garoto. Era o “eu lírico” de cada um daqueles meninos. Podíamos não lembrar o conteúdo das aulas, mas sabíamos de có o episódio exibido no dia anterior ao ponto de contar, com riqueza de detalhes, para os faltosos.

Aquele menino jornalista e seu fiel companheiro povoaram nosso imaginário. Hoje, vinte anos depois, me encontro na fila do cinema para fazer uma viagem ao passado. Tintim está de volta. Agora em terceira dimensão. As tecnologias, fruto da modernidade, nos permitem uma quase interação com a história. O desenho virou uma animação. Os personagens estão mais reais que nunca. Eles quase ganharam vida. Daquela TV de catorze polegadas com imagens em preto e branco, para uma tela de projeção que ocupa uma parede inteira. De carteiras desconfortáveis a poltronas e salas com ar condicionado.

Tintim chega à telona e já está garantido na maior premiação do cinema mundial. Vejo as aventuras do menino topetudo como se olhasse para a trajetória de vida de todos aqueles meus ex-colegas que, como Tintim, enveredaram por esse mundo a procura de um sonho, de um tesouro, de uma oportunidade. Desejo, sem sucesso, reunir aquela turma formada por Alécio, Antônio, Mércio, Arimatéia, José, Neto, Adriano, Francisca, Alcino e tantos outros, para ir ao cinema e reencontrar o nosso herói infantil. Seria no mínimo engraçado.
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