Jurani Clementino
Jurani Clementino é graduado em Jornalismo, Especialista em Comunicação e educação, Mestre em Desenvolvimento Regional, Professor universitário e cronista. Atualmente faz Doutorado em Ciências Sociais pela UFCG.
Quinta-Feira, 15 de Novembro de 2012 08h17
Casas revolucionárias
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Para os pesquisadores de comunicação social, não é nenhuma novidade afirmar que uma revolução sem precedentes está acontecendo. Como motivador desse novo processo de interação e comunicação estão as chamadas reconfigurações das sociabilidades contemporâneas. Uma sociedade mediada por redes operadas por tecnologias tem permitido o que eles chamam de horizontalização do processo comunicacional. O computador e o aparelho celular conectados à internet vêm promovendo uma espécie de “integração mundial”. Antes de maneira muito tímida, agora de forma bastante agressiva.

Nas ultimas semanas, a minha página numa rede social tem recebido uma série de novos pedidos de amizade. Entre os remetentes, dezenas de jovens moradores da comunidade rural em que nasci localizada no interior do estado do Ceará. Meninos e meninas que vivem no sopé da serra do São Nicolau, próximo as margens do Riacho do Machado, distrito do Canindezinho.

Neste sentido, tenho percebido que há pouco mais de um mês, a rotina daqueles moradores foi quebrada com a instalação de uma espécie de cyber coletivo e gratuito denominado de “Casas Digitais”. A iniciativa faz parte de um esforço do Governo Federal, através do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), em levar a internet, a informática e as tecnologias digitais aos lugares mais remotos do país. O projeto chama-se “Territórios Digitais”. É uma parceria do MDA com as Associações de moradores.

A “Casa Digital do Campo” é um espaço público, gratuito e de gestão comunitária que tem a inclusão digital como ferramenta para superar as dificuldades de permanecer no meio rural. No Estado do Ceará o projeto já ganhou implantou 88 Casas Digitais, distribuiu 968 computadores nas comunidades rurais, realizou 176 cursos e capacitou mais de 3.500 moradores do campo, possibilitando que mais de 70 mil agricultores tenham acesso à noções de informática básica e gestão compartilhada.

Bem, desde a inauguração da casa mais visitada daquela comunidade - com suas janelas abertas pra um novo mundo que vai além daquela serra que surge no horizonte -, que a vida desses meninos ganhou um novo sentido. Eles se amontoam no espaço apertado e quase sempre quente e se deslumbram ao descobrirem as potencialidades oferecidas pelos dez computadores conectados à internet. Exploram tais potencialidades criando perfis em redes sociais, blogs, e-mails e realizando cursos de informática.

Como diferenciar o mundo real, ambiente compartilhado em relações face a face, do mundo virtual, mediado pelas tecnologias? Essa é uma resposta que talvez perturbe os pesquisadores, mas certamente não está entre as atuais angustias desses meninos rurais. Eles percebem que este é um mundo ainda confuso, mas administrável. Um caso muito freqüente é o esquecimento das senhas de acesso e a criação de novos e novos e-mails e perfis nas redes sociais.

Assim aquela ferramenta, aparentemente estranha, vai se transformando em brincadeira de criança. Perdendo a timidez diante da máquina, cada um vai descobrindo as mil possibilidades desta nova geringonça. Adolescentes crianças e adultos se rendem ao fascinante universo tecnológico, quase sempre revolucionário. Constroem e reconstroem seu mundo interagindo através de uma rede operada por tecnologias. Adéquam-se às formas de sociabilidade. Novas e desafiantes possibilidades se impõem a estes “cidadãos digitais”.

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