09 de setembro de 2010
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COLUNAS
Três exigências radicais para seguir Jesus
Padre José Assis Pereira

Lucas reuniu em seu evangelho ensinamentos, ditos ou parábolas que Jesus pronunciou em ocasiões diferentes, compondo uma espécie de catecismo do seguimento e da identidade cristã (Lc 14,25-33). Como em outras ocasiões encontramos Jesus rodeado por multidões. Era fácil e gratificante seguir este jovem e brilhante pregador de Nazaré; que falava com autoridade, amava as crianças e preferia a companhia dos pobres e humildes. Também hoje somos muitos os que nos dizemos seguidores de Jesus, para todos ele apresenta três condições, se realmente quisermos ser seus discípulos e discípulas.



A primeira exigência radical consiste em romper com os vínculos puramente humanos de família: "Se alguém vem a mim, mas não odeia seu próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo.” (Lc 14,26) A palavra do texto original fala de ‘ódio’ à família e tem sido causa de escândalo para milhões de cristãos ao longo dos séculos. Mas, é óbvio que Jesus não exige o ódio, trata-se de um hebraísmo, para falar do desapego completo e imediato do seguidor ou discípulo desse impedimento. Estas palavras foram pronunciadas, segundo Lucas, quando Jesus caminha para Jerusalém a fim de padecer e morrer. Nesse contexto soam estas condições para o seguimento, “no centro da mensagem de Jesus, e constituem um dos aspectos mais consoladores e fecundos de toda a sua palavra. Por família (pai, esposa, filhos, irmãos) entende-se o clã onde se vive, a união biológica do sangue, a segurança da raça, o ideal de um destino partilhado. Encerrar-se no amor dessa família baseada nos laços de sangue, nos interesses de uma raça, nas funções de um partido político, nas fronteiras de um Estado que se absolutiza...; encerrar-se dentro desses limites, significa confundir amor com egoísmo, o bem dos outros com os meus interesses próprios. Cristo veio criar um amor que derruba as barreiras; por isso, oferece a sua assistência aos marginais, pecadores, estrangeiros. Só na medida em que seguirmos o seu exemplo, só na medida em que buscarmos o bem de todos os necessitados sem exceção e formos capazes de derrubar as barreiras da indiferença e do ódio que separam os clãs, as raças, as nações da terra, só nessa medida seremos seguidores de Jesus Cristo.” (Comentários à Bíblia Litúrgica)


Portanto, para o redator do evangelho de Lucas, em sua leitura da tradição de Jesus e da comunidade cristã do primeiro século, como catequese ele apresentou sua consequência prática: decidir-se por Jesus deve ser a prioridade e tudo o mais, até os laços familiares devem vir em segundo lugar. Em momentos concretos da vida, talvez em situações limites, quando os vínculos de família ou o interesse pessoal interferir e contrastar com o chamado de Jesus devemos preferir a radicalidade do evangelho, que é a radicalidade do Reino de Deus, da busca de fazer a sua vontade, sobretudo, diante das imposições dos familiares, imposições religiosas, sociais ou políticas. Isso não significa “odiar os nossos”, mas não podemos ter problema de consciência, em nome do evangelho, de “separar-nos” de seu mundo, de seus critérios, de suas imposições injustas e de seus caprichos ou tradições quase sagradas que não dignificam ou libertam de verdade. Isto hoje também serve, para a atitude dos cristãos no mundo contra a injustiça, a guerra, ou globalização, deve ser a verdadeira alternativa de identidade. Se não o fazemos, por não trair os “nossos”, podemos perder nossa identidade como seguidores de Jesus e de seu evangelho.


A segunda exigência no discipulado de Jesus aponta para a predisposição de aceitar todas as consequências decorrentes da opção pelo Reino. Isto significa tomar a própria cruz. "Quem não carrega sua cruz e não vem após mim, não pode ser meu discípulo.” (Lc 14,26) Carregar a cruz e segui-lo, supõe para nós mudar o curso de nossas vidas. Aceitar em nosso coração o peso do amor com todas suas exigências e consequências, isso certamente nos assusta, sobretudo, ao contemplar a cruz de nossos irmãos e irmãs, se nossa própria cruz não nos é possível levar. Claro que podemos ter “cirineus” que nos ajudem a levar em alguns momentos nossa carga, mas têm que ser nós mesmos os que devemos levar o peso diário das pequenas cruzes de cada dia. “Todos carregamos alguma cruz ou nas costas ou no coração. E toda cruz por menor que seja, é onerosa. Ela pode ser vivida como tribulação ou como libertação. Depende de como a encaramos e a assumimos. Os judeus quiseram castigar Jesus e lhe impuseram pesada cruz às costas e nela o crucificaram. Jesus transformou o castigo em bênção. Assumiu a cruz como resgate e forma de ser solidário com todos os crucificados da história. Jesus legou-nos um exemplo... A cruz nossa de cada dia... Faz pensar, buscar sentido. Expande a consciência, convoca a esperança, conduz ao crescimento. Faz viver.” (Boff, 2003.)


Vivemos nesta terra, que muitas vezes é um verdadeiro vale de lágrimas. Se optamos por viver neste solo como autênticos filhos e filhas de Deus, a cruz vai ser uma carga, uma sombra que nunca nos vai abandonar de todo. É evidente que vamos ter dias bons e alegres, mas das tormentas de cada dia não nos vamos livrar. Não necessitamos buscar a cruz, ela inevitavelmente vem, ela se instala, faz sofrer. É sem dúvida a cruz da solidão, do desprezo, da morte de ser querido, do abandono, da enfermidade própria ou dos nossos, do peso da existência, essa cruz é a que devo levar atrás de meu Mestre enquanto caminho pela vida. Segui-lo carregando cada um sua cruz, é sacrificar-se, é aceitar as cargas pequenas ou não, que a própria vida nos manda. É caminhar por onde Jesus caminhou, é seguir atrás dele, seus passos, desde Nazaré até Jerusalém, até o calvário e até a ressurreição. Pois o cristão encontra o sentido à cruz quando sente a experiência da ressurreição, quando o Amor de Deus invade toda sua existência. Com a cruz de cada dia às costas, mas com a alegre aceitação de quem se sabe amado e não abandonado.


Quanto à terceira exigência no seguimento do Mestre é a renúncia aos bens, por que sabemos que estes podem nos levar a viver em função deles sem deixar espaço para o Reino: “Qualquer um de vós, que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo.” (Lc 14,33) Será que Lucas queria ensinar a odiar a riqueza ou amar a pobreza? Nem uma coisa nem outra. Lucas não pede para amar a pobreza em si, ele quer que tudo se ponha em comum, para que não haja indigentes entre os cristãos: “Não havia entre eles necessitado algum. De fato os que possuíam terrenos ou casas, vendendo-os, traziam os valores da venda... e distribuía-se então, a cada um, segundo sua necessidade.” (At 4,34-35); ou seja, a razão de renunciar aos bens é para que não haja pobres e inclusive para que haja justiça no mundo. “Renunciar aos bens não significa prescindir do mundo. Renunciar implica situar tudo em direção ao reino: utilizar as coisas para bem dos outros, dentro de um campo de amor aberto a todos os que estiverem necessitados.” (Comentários à Bíblia Litúrgica) Contudo, devemos ser conscientes da nossa realidade onde pobreza e riqueza existem personificadas, têm nome e endereço: há poucos ricos e muitos pobres. Mas, há bens suficientes no mundo para que todos tenham o necessário. O mundo é injusto por causa dos que amam as riquezas e o poder; em muitos casos esses amores são transmitidos pela própria família, o clã, os interesses de classe e de grupo. Esse mundo desmorona ante a radicalidade da vida de Jesus e de seu Reino. Buscar a segurança nos bens deste mundo é por o coração naquilo que nos afasta deste projeto.


O ensinamento não pode ser mais claro, Jesus não escondeu de seus discípulos as dificuldades, inclusive, poderíamos dizer que parece até exagerá-las um pouco. Por isso não pode causar estranheza que às vezes nos custe ser fieis ao evangelho, e em ocasiões chegue até certo heroísmo ser cristão. Portanto, temos de lutar com coragem cada dia contra todo obstáculo que se interponha entre o Senhor e nós; ainda que esses obstáculos sejam os “nossos” entes mais queridos, ou o uso dos bens em proveito pessoal.


E Lucas, não deixando lugar para dúvidas em sua catequese do verdadeiro cristão sublinha as dificuldades do seguimento em duas parábolas (Lc 14, 28-32): A parábola daquele que quer construir uma torre e a do rei que deve ir à guerra. Elas ilustram um pouco o empenho que se tem de por nas propostas radicais de Jesus. “Seguir Cristo é algo custoso e difícil. Por isso, quem quiser decidir-se a ser cristão, deve calcular muito bem as suas forças, o que assume, o que arrisca.” (Comentários à Bíblia Litúrgica) Muitos começam a construir e, por não calcular bem os custos da obra, ficam sem terminá-la. Hoje podemos compartilhar a mesma observação de Lucas. Os cristãos somos milhões no mundo. Nossa sociedade segue sendo majoritariamente cristã. Mas, a questão hoje, como ontem, não pode perder-se na constatação estatística ou numérica, por exemplo, das multidões que assistem às missas, mas em se estamos dispostos ou não, a seguir a Jesus. Para dizer que nosso lar é um lar cristão é preciso ir além de possuir um vistoso quadro do coração de Jesus ou um precioso crucifixo pendurado esteticamente na parede da sala; ou ter batizado, feito a primeira eucaristia ou crismado os filhos. Significa viver as condições evangélicas que Jesus nos propõe, isto é, viver a radicalidade de seus ensinamentos em todas as circunstâncias, isso de forma normal, sem alienações, repressões ou beatices. Pois as condições que Jesus põe para seus seguidores podem parecer-nos muito radicais, mas não há outras. Portanto, a opção responsável e definitiva por Jesus e pelo seu evangelho é o que caracteriza um cristão, não a mera pertença socioreligiosa a uma determinada igreja. “Porque se perguntarmos pelo essencial do cristianismo, pelo núcleo central e constitutivo da nossa fé e seguimento, teremos de responder que não são só os dogmas teológicos, as normas morais, um culto litúrgico, uma lei canônica, uma hierarquia institucional, uma igreja, um livro revelado, mas a pessoa de Jesus Cristo que morreu pelos nossos pecados e ressuscitou por nossa salvação... E o que é que diferencia o discípulo de Cristo de um não crente? O que é que a sua fé acrescenta à realidade quotidiana e prosaica da vida humana? O cristão, chamado a participar na vida de Cristo é, de fato, já filho adotivo de Deus pelo dom do Espírito, é a Jesus que segue, como modelo, até chegar à identificação com ele. Ser cristão significa revestir-se de Cristo e ter os mesmos sentimentos, atitudes e ações na vida.” (Caballero, 2000.)
Temos de avaliar seriamente como é nosso seguimento de Jesus e se nele, pesam mais nossos interesses ou os do Reino. Necessitamos muita oração, muita conversão para compreender e aceitar as exigências que o Senhor nos dirige no seu evangelho.

Bibliografia:
Vários Autores. Comentários à Bíblia Litúrgica, Gráfica de Coimbra 2.
Boff, Leonardo. A cruz nossa de cada dia, fonte de vida e ressurreição. Campinas, Verus, 2003.
Caballero, B. A palavra de cada Domingo, Ano C. Apelação (Portugal), Paulus, 2000

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* Padre José Assis Pereira Soares é administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora de Fátima Palmeira.

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